Editorial A Tribuna

A Tribuna é o maior e mais antigo jornal impresso a circular na Baixada Santista. São 126 anos contando e publicando histórias.

Acesse todos os textos anteriores deste colunista

Princípio elementar

Além da sentença impertinente no STF, está perto de ocorrer uma viagem inútil para propalar um método inservível contra covid

A decisão tomada horas antes da Páscoa pelo ministro Kassio Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal (STF), na qual liberou celebrações religiosas com presença de público, mostra que não há jeito: o País está ao deus-dará na luta pela contenção da pandemia de covid-19, hoje no pior momento.
O fato de que sentenças judiciais não devem ser discutidas, mas cumpridas, não isenta os julgadores da crítica à eventual impertinência do que ordenam. Tanto que cabem apelações — neste caso, uma necessidade urgente e que retarda o já atrasado controle da disseminação do coronavírus.

Clique e Assine A Tribuna por apenas R$ 1,90 e ganhe acesso completo ao Portal e dezenas de descontos em lojas, restaurantes e serviços!

O Poder Judiciário merece reprimenda sempre que se arvora em defensor de interesses particulares, como fez Nunes Marques ao permitir, ainda que com capacidade limitada a 25% dos locais de adoração, a presença de fiéis em missas ou cultos.

Longe de ser caso único na Justiça brasileira, o ministro ignorou o elementar princípio de que o direito coletivo se sobrepõe ao individual. Preservar a vida está acima de manifestações individuais de fé. 
Obviamente, é uma decisão lastimável e que poderá ser derrubada amanhã, quando o plenário do STF tomará por base a decisão de Marques e outra, do ministro Gilmar Mendes, que proibiu celebrações religiosas com presença de público no Estado de São Paulo.

As restrições ao cotidiano, por causa da covid-19, são desagradáveis, desarticuladas e em reação a muita força contrária feita por um inimigo declarado de medidas de isolamento: o presidente Jair Bolsonaro, que trocou de ministro da Saúde, mas não, de atitude.

Não dá para esperar nada do Governo Federal, a menos que o ministro Marcelo Queiroga tenha desprendimento de seu novo emprego e, enquanto estiver no cargo, contrarie em público o presidente.

Não parece: ele acompanhará Jair Bolsonaro na visita que ele deverá fazer, nesta semana, ao prefeito de Chapecó (SC), João Rodrigues. Ontem mesmo, o presidente compartilhou vídeo gravado pelo chefe do Executivo catarinense, no qual propala ter reduzido mortes e internações com o uso do questionado “tratamento precoce”.

Contudo, números compilados pelo portal Poder 360 indicam que o número de óbitos por covid-19 neste ano, na cidade, foi quase quatro vezes superior ao registrado entre março e dezembro do ano passado. E, no domingo, havia 130 internados em UTIs nesse município, ante 38 no começo de janeiro. Enfim, tende a ser mais uma viagem inútil para a promoção de um método inservível.

Como diz o infectologista Marcos Caseiro nesta edição, fatos assim ocorrem “só aqui no Brasil”. Aliás, este é outro tema urgente: a existência de médicos que, escorados na autonomia profissional, receitam remédios que não impedem a infecção e podem matar. Que o digam pacientes na fila de transplante de fígado em hospitais de Clínicas paulistas e seus parentes devido ao uso do “kit covid”.

Tudo sobre:
 
Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha editorial e ideológica do Grupo Tribuna.
As empresas que formam o Grupo Tribuna não se responsabilizam e nem podem ser responsabilizadas pelos artigos publicados neste espaço.