Editorial A Tribuna

A Tribuna é o maior e mais antigo jornal impresso a circular na Baixada Santista. São 126 anos contando e publicando histórias

Patrimônio ao relento

A hospedaria simboliza desperdício do dinheiro público e o desprezo por locais que representam uma época

De tempos em tempos, as autoridades vêm a público para anunciar uma finalidade ao que restou da Hospedaria dos Imigrantes, imóvel tombado pelo patrimônio histórico e que fica na Vila Mathias, em Santos. Basta passar pelo trecho para entender que as promessas jamais foram cumpridas - restam as paredes externas, parte delas escorada por andaime. Além disso, há um aspecto de total abandono, gerando sensação de insegurança tanto em relação a assaltos como de risco de queda de pedaços da construção. O plano mais recente de uso é de 2012. A ideia era instalar no local a sede da Faculdade de Tecnologia (Fatec) da Baixada Santista. Instituição responsável pela Fatec, o Centro Paula Souza, do Governo do Estado, diz que a Fatec já está instalada em novo prédio na Avenida Senador Feijó e que neste momento não há previsão financeira para investir na restauração na hospedaria. A entidade alega que devido à pandemia os recursos necessários para o investimento estão contigenciados por um decreto estadual. Se a reportagem sobre a situação da edificação, publicada nesta segunda-feira (10) por A Tribuna, tivesse sido veiculada antes, por exemplo, em janeiro, antes da disseminação da doença, qual teria sido a resposta? Por isso, o Governo do Estado deveria assumir de vez que não tem condições de levar qualquer projeto adiante e, assim, dar satisfação à população. 

Na verdade, observando-se ao longo do tempo, não houve grande esforço do setor público em investir na hospedaria, uma construção de 1912 que acabou sendo utilizada para atividades ligadas ao Porto, como armazém de café, depósito de banana e pátio de contêineres. Com o passar dos anos, muitos foram os repórteres deste jornal encaminhados ao local para conferir a situação de abandono. Segundo relato de um desses jornalistas, o espaço se tornou na época ponto de descarte de bens sem uso, como um Fusca, mesas e armários provavelmente de órgão estatal. 

Com a pressão pela restauração de locais históricos, usos mais nobres foram prometidos até antes da Fatec. Em 2005, o edifício foi transferido pelo Estado à Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), depois a Prefeitura o recebeu para finalidades turísticas, retornando-o à Unifesp, que pretendia instalar ali campus. Resta agora passar a pandemia para o Paula Souza se decidir sobre a hospedaria. 

A situação atual da hospedaria simboliza o constante desperdício do dinheiro público e o desprezo por construções que representam uma época. Apesar de haver um amplo espaço daquele que poderia ter sido utilizado para revitalizar uma área degradada, optou-se por levar serviços públicos para novos edifícios e bairros mais valorizados. Agora que as contas públicas rumam para um de seus piores momentos e o setor privado está retraído devido a tempos difíceis, pouco se deve esperar em relação ao resgate da hospedaria. Espera-se pelo menos que se evite que o espaço despenque sobre pedestres.

Tudo sobre:
 
Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha editorial e ideológica do Grupo Tribuna.
As empresas que formam o Grupo Tribuna não se responsabilizam e nem podem ser responsabilizadas pelos artigos publicados neste espaço.