Editorial A Tribuna

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Obrigação de preservar

A sustentabilidade econômica da mata e a preservação da floresta são indiscutíveis e não há meio termo

Primeiro os gestores de grandes fundos de investimento internacional alertaram para a preocupação com a Amazônia. Depois os comandos dos três grandes bancos privados brasileiros foram a Brasília cobrar compromissos sobre a agenda ambiental. Paralelamente, o Parlamento holandês se posicionou contra o acordo da União Europeia com o Mercosul, alegando critérios ambientais – isso sinalizou que a imagem do Brasil não é das melhores lá fora. Porém, esses recados não foram bem compreendidos pelo governo, considerando-se os recentes movimentos do alto escalão ministerial. 

Nesta semana, Paulo Guedes (Economia) e Ricardo Salles (Meio Ambiente) reagiram de forma atabalhoada na questão ambiental, enfraquecendo a cartilha do vice-presidente Hamilton Mourão, de que o País é capaz de conviver de forma sustentável com a Amazônia. 

Para começar, Guedes, provocado no fórum do Aspen Security, centro formador de opinião dos Estados Unidos frequentado por empresários e diplomatas, disse que os americanos destruíram as florestas deles e mataram os índios sem miscigenar com eles. Um tom até aceitável à mesa de bar, mas intolerável por parte da autoridade que representa o País em uma discussão de nível internacional. Já Salles, que em entrevistas nega interferir nas fiscalizações na mata, se mostrou em posição controversa frente ao garimpo ilegal e em discussão sobre indígenas que vivem da mineração.

“Eu disse que o que eles (índios) estão fazendo é ilegal e que eles têm de demandar ao Congresso a mudança da legislação”, disse à reportagem do Estadão. No meio da semana, após protesto de garimpeiros, o Ministério da Defesa interrompeu uma operação do Ibama em Jacareacanga, no Sudoeste do Pará, para “reavaliação”. 

O governo precisa dar sinais mais claros e resultados efetivos na fiscalização na Amazônia, pois a sustentabilidade das atividades econômicas na mata e a preservação da floresta são questões indiscutíveis e não há meio termo. Agora, há também o desafio de não só convencer, mas provar que o País trabalha pela floresta para que os fluxos comerciais com os países parceiros continuem sem contestação ou eventuais barreiras de punição. 

Infelizmente o governo trabalha com a tese de que há uma conspiração planetária pela Amazônia, mas se a destruição desse bioma avançar sem restrição, impactos ambientais cairão sobre as grandes metrópoles e as regiões da agropecuária no Sul e Sudeste. 

No campo comercial, sem um trabalho pragmático e eficiente, com redução do desmatamento e dos incêndios, a imagem do País continuará ladeira abaixo no exterior, onde já se discute qual a proporção de soja e carne brasileiras que sai de áreas desmatadas. Alguns cientistas falam em 20%. 

A imagem de país ameaçado internacionalmente pode até animar a ala ideológica do governo, mas as perdas para o agronegócio serão elevadas. 

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