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Quarta-feira

12 de Agosto de 2020

Editorial A Tribuna

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O coronavírus na periferia

Garantir índices baixos de ocupação de leitos passa por evitar que haja a propagação em massa nos bairros mais pobres

Depois de quase 90 dias desde que a pandemia se tornou uma realidade no Brasil, algumas certezas já é possível ter. A primeira delas é que o potencial de propagação é maior e mais agressivo que a maioria das epidemias que assolaram o mundo nas últimas décadas, como H1N1, gripe suína ou aviária. Tanto assim que em nenhuma dessas foi necessário esse grau de providências sanitárias ou a corrida na montagem de hospitais de campanha, leitos de UTI e quarentena.

O Brasil já soma mais de 35 mil mortes e 672 mil casos confirmados, colocando o país em uma posição do ranking nada confortável, que prejudica não só a imagem que se tem lá fora, como também o ânimo das empresas internacionais em investir em um ambiente cujo controle sanitário ainda não se mostrou efetivo.

Mas para além da fotografia que o país grava no exterior, a análise dos dados no ambiente interno traz uma preocupação a mais para governos e sociedade: o avanço dos casos nas zonas e bairros mais vulneráveis, com pessoas em situação de pobreza que, sem plano de saúde, recorrem ao sistema público para o atendimento.

Reportagem publicada neste domingo (7) por A Tribuna não deixa dúvidas sobre esse quadro. O fenômeno ocorre em todos os municípios, mas em alguns de forma mais contundente. Em Guarujá, por exemplo, a doença começou em bairros de maior poder aquisitivo, como Tombo, Astúrias e Guaiúba, migrando agora para locais mais pobres. O Paecará, por exemplo, lidera a estatística com 205 casos. Em São Vicente, a Vila Margarida, onde fica a favela México-70, contabiliza 91 casos, seguido pelo Centro (75), Jóquei Clube (68) e Cidade Náutica (67).

Não é difícil identificar algumas das razões que sustentam essa matemática. As principais medidas de prevenção para conter a pandemia do coronavírus – lavar as mãos e o rosto com frequência, fazer uso de álcool gel e praticar o distanciamento social – não estão ao alcance de muitos moradores de comunidades e periferias das cidades brasileiras.

Além disso, nem mesmo o fornecimento de água está presente nesses locais. No Dique da Vila Gilda, Zona Noroeste de Santos, por exemplo, há mais de 40 mil famílias vivendo em situação de vulnerabilidade. Se não há água, como garantir a desinfecção e higienização adequadas?

Além disso, poucos moradores podem aderir ao isolamento, porque precisam trabalhar, ainda que informalmente.
Estado e municípios precisarão reforçar suas políticas de auxílio a essas famílias, com destinação de renda mínima para que possam aderir ao regramento adequado. Há que se considerar que muitas dessas pessoas não acessaram a ajuda oferecida pelo Governo Federal.

Se o objetivo dos municípios que vêm retomando as atividades econômicas é manter baixo o índice de ocupação de leitos, essa é uma questão que não poderá ser ignorada.

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