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Sábado

15 de Agosto de 2020

Editorial A Tribuna

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Na contramão

As emissões de gases de efeito-estufa provocados pela queima de combustíveis fósseis tiveram baixa vertiginosa

Em todo o mundo, a pandemia do novo coronavírus reduziu a atividade econômica: paralisou indústrias, reduziu o tráfego de veículos, provocou forte diminuição das viagens aéreas. Tudo isso tem graves consequências para empresas e trabalhadores, mas trouxe efeito inesperado: as emissões de gases de efeito-estufa provocados pela queima de combustíveis fósseis tiveram baixa vertiginosa e, assim, devem encerrar 2020 com a maior redução da série histórica.

Estudos da Organização Meteoro-lógica Mundial (OMM) estimam que a diminuição pode chegar a 6%, em relação a 2019, e outro trabalho, da ONG Climate Action Tracker, vai na mesma direção, apontando que as emissões de CO2 fiquem entre 4% e 11% menores do que as registradas no ano passado. 

Ambientalistas comemoram, mas temem que os números não se sustentem no futuro próximo. A recuperação econômica virá em 2021, e com ela pode acontecer o “efeito rebote”, ou seja, a retomada vigorosa das emissões, especialmente se as metas do Acordo de Paris, de 2015, não sejam consideradas e postas em prática.

Destaque-se que, antes da crise da covid-19, o problema vinha se agravando: em 2019, a quantidade de gases de efeito-estufa emitidos bateu novo recorde e, entre 2015 e 2019, o volume de CO2 liberado na atmosfera foi 18% maior do que nos cinco anos anteriores.

Em mensagem, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Antonio Guterres, chamou a atenção do mundo que a pandemia da covid-19 expôs a fragilidade de todas as sociedades e economias a choques globais, como são as doenças e os choques climáticos. O alerta do coronavírus precisa ser estendido ao meio ambiente, cujo comprometimento acelerado pode levar a situações ainda mais graves e dramáticas do que o atual quadro.

O apelo é para que governos mantenham seus compromissos de apresentar, daqui a um ano, suas contribuições nacionais e estratégias de longo prazo para zerar as emissões de carbono até 2050, e a liderança do processo deve ser das nações mais desenvolvidas que formam o G-20. A preocupação é que as verbas destinadas a combater as mudanças climáticas sejam desviadas para projetos de recuperação econômica pós-pandemia sem nenhuma relação com as questões ambientais.


O Brasil segue na contramão das reduções. Como a maior parte de suas emissões de gases de efeito-estufa vem do desmatamento da Amazônia, o cenário é grave, uma vez que elas continuam batendo recordes. Dados do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) indicam que, de janeiro a março, houve aumento de 51% nos alertas de desmatamento, em comparação com igual período de 2019.

No primeiro trimestre, foram devastados 796 km² da floresta amazônica, e nem a pandemia reduziu o ímpeto dos desmatadores: nas últimas semanas de março, houve crescimento de 30% no seu trabalho. 

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