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Segunda-feira

13 de Julho de 2020

Editorial A Tribuna

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Máscara, multa e cidadania

Muitos consideram que o uso da máscara é apenas a imposição caprichosa do governo. A esses, só mesmo a força da multa

O governador João Doria anunciou esta semana a aplicação de multa de R$ 500,00 a quem for flagrado sem máscara, em locais públicos, em todo o Estado. Para as empresas que descumprirem a obrigatoriedade, o valor sobe para R$ 5 mil por pessoa sem máscara. A exigência começa a valer hoje. O objetivo do governador é chegar a 100% de adesão ao uso da máscara, que hoje está em 93%. 

Nas redes sociais, houve todo tipo de manifestação sobre a novidade. Dos que acham que o valor é pouco para o que chamam de afronta à saúde pública, aos que consideram uma cifra abusiva e uma nova forma de capitalizar os cofres públicos, combalidos desde março pelos gastos no combate à pandemia do coronavírus.
A questão não é se o valor é razoável ou abusivo, se é para reabastecer o caixa público ou não. A discussão que se precisa ter antecede a definição de cifras, é antiga, e tudo indica que não será exclusiva do momento atual pelo qual passa o Brasil, às portas de contabilizar 60 mil mortos pela covid-19.

Basta circular pelas cidades da Baixada Santista para entender que a iminência do risco ainda não está no inconsciente coletivo de muitas pessoas, independentemente da faixa etária. Por mais que se saiba que o uso da máscara reduza a 1,5% a chance de contaminação pelo vírus quando postas próximas uma pessoa contaminada e outra saudável, a informação parece ter relevância nenhuma a dezenas de cidadãos, que não só se colocam em risco, como ao coletivo também.

É legítimo reclamar dos poderes públicos a oferta de mais vagas de internação, pessoal técnico capacitado, disponibilidade de medicamentos e adequação dos planos de retomada à observância dos cuidados sanitários recomendados pelas autoridades de saúde, mas a queixa perde o pleno valor quando o próprio cidadão não faz a sua parte.

Pesquisa informal conduzida pela Faculdade de Medicina da Universidade São Judas - Campus Cubatão constatou, em três dias de observação em cinco municípios da região, que apenas 45% das pessoas usam a máscara corretamente. Dos demais observados, 15% sequer a usam e os demais 40% o fazem incorretamente, o que dá uma falsa sensação de proteção.

A quem responsabilizar pela eventual contaminação senão ao próprio cidadão que ignora a informação ou simplesmente a nega? E não se pode dizer que sejam pessoas de menor nível socioeconômico, ou que não tenham acesso à informação. A irresponsabilidade e a negligência com a saúde coletiva estão escancaradas em todos os segmentos, como se quisessem provar aos demais que não se rendem “às obrigações do Governo”, como se o uso de máscara fosse apenas uma imposição caprichosa de quem detém o poder. A esses, infelizmente, só mesmo a força da multa para despertar a consciência. Adicionalmente, deveriam passar por um ciclo de palestras com pessoas que já viveram o drama da contaminação ou a tristeza do luto.

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