Editorial A Tribuna

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Governadores e o jogo político

A mudança depende da aprendizagem com acertos e erros, estes sendo corrigidos sempre pelas urnas da democracia

A aprovação simultânea de processos de impeachment dos governadores do Rio de Janeiro, Wilson Witzel (PSC), e Santa Catarina, Carlos Moisés (PSL) por suas Assembleias Legislativas sinaliza que a onda de outsiders que condenavam a velha política não tem futuro se essa nova safra não fizer essa mesma velha política. Em que pese os motivos dos dois casos, no fluminense desvios da saúde e no catarinense o reajuste de salários de procuradores do Estado, o pano de fundo das votações pelo impeachment (os processos aprovados em plenário ainda precisam do aval de uma comissão) foi a inexistência de uma base de apoio – seja ela formada por meios éticos ou imorais. 

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Pois foi a costura de uma base de apoio que garantiu também ontem ao prefeito do Rio, Marcelo Crivella (Republicanos), de escapar pela quarta vez da abertura de processo de impeachment, ainda que agora com motivo bem forte – a instalação de um suposto QG da propina. 

Segundo especialistas em bastidores das assembleias, a onda bolsonarista elegeu uma safra que condenava o jeito tradicional de fazer a política, sustentada por coalizões. Tal prática ganhou dimensão a partir do Governo Sarney e sustentou Fernando Henrique, Lula e até certo ponto Dilma Rousseff. Esse meandro, que também se espalhou pelos governos estaduais e prefeituras, impôs a divisão de cargos entre as legendas apoiadoras, muitas vezes dando gás à corrupção. Em busca da vitória nas urnas, os partidos acertam apoios com empresas que esperam ser premiadas com vitórias em licitações fajutas.

Porém, com ou sem coalizão, esse negacionismo da política em sua essência, que é a conversa de bastidores, não necessariamente para vantagens indevidas, mas para selar apoios nas votações legislativas, foi deixado de lado, aliás com viés autoritário. Pensou-se de forma mágica no bônus eleitoral, o período em que o Executivo tem muita força extraída das urnas. Porém, sua duração depende dos altos e baixos em qualquer governo. Nos momentos ruins, os legisladores experientes mostram suas forças para ajudar ou pressionar. 

De uma forma parecida, o Governo Bolsonaro também se descuidou do Legislativo, sofrendo derrotas desastrosas no plenário. O presidente acordou a tempo e compôs apoio com o Centrão, que, considerando as operações policiais que costumam cercar seus membros, contraria a fala anticorrupção da campanha eleitoral bolsonarista. 

Não apenas Witzel e Moisés entraram na mira das respectivas assembleias, como Romeu Zema, em Minas Gerais, e Wilson Lima, no Amazonas. A diferença é que estes escaparam, compondo bases. Ao eleitorado, a lição que fica é que não há fórmula pronta ou murro na mesa para modificar mecanismos viciados e deploráveis da negociação política. As mudanças positivas dependem da aprendizagem com acertos e erros, estes sendo sempre corrigidos pelas urnas da democracia. Sem as vias democráticas, não há alternativas aceitáveis. 

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