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Segunda-feira

14 de Outubro de 2019

Editorial A Tribuna

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Famílias com mais dívidas

Taxa de endividamento em relação à renda acumulada em 12 meses subiu para 44,04%, o maior valor desde abril de 2016

Dados do Banco Central revelaram que, após longo processo de redução de débitos que vinha acontecendo desde o início da recente recessão econômica, o endividamento das famílias voltou a crescer e alcançou o maior nível em três anos. A taxa de endividamento em relação à renda acumulada em 12 meses subiu para 44,04%, o maior valor desde abril de 2016, quando chegou a 44,2%. 

Pesquisa da Confederação Nacional do Comércio (CNC) confirma essa situação, mostrando também aumento no número de famílias que se declaram endividadas. Elas eram 64,1% do total em julho, maior percentual desde maio de 2013. O comprometimento da renda e a inadimplência, entretanto, têm se mantido estáveis, revelando que o brasileiro, embora com mais dívidas, tem conseguido pagar seus débitos. 

A situação não é, porém, confortável e tranquila. O grande número de famílias endividadas – quase dois terços do total, segundo a CNC – deve ser motivo de preocupação, e sabe-se que a maioria se equilibra precariamente, uma vez que a recuperação do emprego segue tímida e insuficiente, e puxada pela geração de vagas informais e mal remuneradas. Se o mercado de trabalho não reagir, pode haver rápida deterioração da condição atual, com a transformação de devedores em inadimplentes sem perspectivas de curto prazo.

O saldo das operações de crédito para pessoas físicas cresceu acima da massa salarial. Com taxas de juros ainda muito altas (elas cresceram no primeiro trimestre deste ano), a situação se agrava. Marianne Henson, economista da CNC, alerta que há descompasso entre atividade e crédito próxima do limite, uma vez que um quinto das famílias já destina atualmente mais de 50% de sua renda para o pagamento de dívidas.

O crescimento do endividamento pode também estar associado à maior confiança da população no início de 2019, quando havia a expectativa de recuperação mais firme e rápida da economia, que acabou não acontecendo. Um fato, porém, é evidente: se o mercado de trabalho não melhorar nos próximos meses pode haver agravamento do atual quadro de devedores, com consequências graves para o nível de atividade econômica.

A liberação de recursos do FGTS de contas ativas e inativas, que começa em setembro, pode contribuir para amenizar riscos imediatos, na medida em que muitos trabalhadores poderão utilizar os valores sacados (R$ 500,00 por conta que possuir) exatamente para saldar dívidas. Mas seus efeitos são limitados e a efetiva saída passa pela efetiva retomada.

A economia brasileira precisa de impulsos para quebrar o atual ciclo de baixo crescimento, com aumento de gasto público com mais obras de infraestrutura e o relançamento do Minha Casa, Minha Vida, possível a partir da reforma da Previdência, que contribui para frear o crescimento do deficit público. 

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