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Sexta-feira

3 de Julho de 2020

Editorial A Tribuna

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Falas do presidente

Grave situação impõe aos governantes a responsabilidade de conduzir e liderar o processo de maneira firme e determinada, buscando acima de tudo a união para enfrentar as dificuldades

O Brasil vive um dos momentos mais difíceis da sua história. A pandemia de coronavírus é fato incontestável em todo o mundo, obrigando medidas de isolamento social que já atinge um terço da população do planeta. A grave situação impõe aos governantes a responsabilidade de conduzir e liderar o processo de maneira firme e determinada, buscando acima de tudo a união para enfrentar as dificuldades.

Infelizmente, o presidente Jair Bolsonaro adotou um caminho diverso: em pronunciamento no rádio e na TV na noite da última terça-feira, ele minimizou o problema, declarando que seu governo, desde o início da crise, em conter o "pânico e a histeria", e referiu-se à Covid-19 mais uma vez como uma "gripezinha" ou "resfriadinho".

Contrariando a orientação do Ministério da Saúde, o presidente pediu a volta à normalidade, criticando o fechamento de escolas, elegendo dois alvos preferenciais: grande parte dos meios de comunicação que, "na contramão do governo, espalharam a sensação de pavor" e autoridades estaduais e municipais, que "devem abandonar o conceito de terra arrasada, com proibição de transporte, fechamento do comércio e confinamento em massa".

A fala de Bolsonaro, ratificada ontem, foi absolutamente inadequada. Em vez de buscar o entendimento com os governadores, essencial agora, preferiu o confronto, explicitado na videoconferência que teve com governadores do Sudeste, especialmente com o governador de São Paulo, João Doria. Trata-se ainda de sublinhar os erros de avaliação cometidos: as recomendações vão no sentido contrário ao que preconiza a Organização Mundial da Saúde (OMS) e da quase totalidade dos líderes mundiais. 

A preocupação com a economia e o sustento das famílias, manifestado pelo presidente, justifica-se. Mas ela não pode ser colocada à frente da vida da população. Foi noticiado ontem que haveria um relatório da Agência Brasileira de Inteligência (ABI) apontando que o número de casos de coronavírus no País pode chegar a mais de 200.000 em duas semanas, com cerca de 5.500 mortos, levando em conta a evolução dos infectados segundo dados oficiais e mortes ocorridas na China, Itália e Irã.

O isolamento do presidente e a radicalização de seu discurso, atribuído à forte influência do "gabinete do ódio", no qual desponta o filho Carlos Bolsonaro, não interessa ao Brasil. As declarações provocaram amplo repúdio de setores da sociedade, incluindo sociedades médicas e conselhos de educação, e de aliados do governo, como o governador Ronaldo Caiado (DEM), que anunciou o rompimento com o presidente. O teor adotado, cujas consequências são imprevisíveis, compromete a legitimidade e a liderança de Jair Bolsonaro neste momento. É preciso equilíbrio, racionalidade e discernimento, que parecem estar faltando ao presidente. 

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