Editorial A Tribuna

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Desenvolvimento voraz

Não se trata de opção de cuidar ou não das florestas — sem elas, as transformações econômicas serão drásticas

O estudo dos biomas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), divulgado na quinta-feira, é dos mais importantes por considerar a redução das matas em um período maior de tempo, de 18 anos (de 2000 a 2018), dando dimensão ao problema. Os resultados impressionam pelos números da devastação e de que em nenhuma das áreas – Amazônia, Pantanal, Cerrado, Pampa, Catinga e Mata Atlântica – houve alguma recuperação. A perda total da cobertura vegetal desses biomas atingiu 500 mil quilômetros quadrados, o dobro de todo o estado de São Paulo. O único resultado positivo foi que a devastação avançou mais devagar ao longo desses 18 anos, mas sem cessar. Entretanto, esse ritmo pode ter sido totalmente anulado por dois anos seguidos de intensas queimadas, até as atuais verificadas na Amazônia e no Pantanal.

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Esse encolhimento dos biomas assusta em um contexto de notícias ruins. Climas mais tórridos e secas prolongadas estimulam os incêndios de regiões com trechos desmatados, como se fosse um caminho para destruir todo o entorno. Há ainda o desmonte da estrutura de fiscalização ambiental e uma política errática, onde as críticas internas e externas são vistas pelo governo como perseguição ideológica e não como um claro objetivo de denunciar o óbvio – de que a mata está cada vez menor e de que isso provocará impacto climático. Principalmente nas (falta de) chuvas, em áreas densamente povoadas e já com crises de abastecimento de água. No final das contas, o agronegócio acabará por sofrer com a redução das matas. 

A destruição de áreas nas florestas densas traz o sério problema de abrir brecha para seguidas devastações. Há alguns anos se dizia que o desmatamento se concentrava nas fronteiras da Amazônia, ao sul de Mato Grosso e oeste-sudeste do Pará. Hoje as imagens dos satélites, tão abominadas pelo alto escalão do governo, mostram focos de queimadas ao longo das rodovias, no sudoeste do Pará em direção ao sudeste do Amazonas e Rondônia, como também no noroeste do Mato Grosso. Só no caso da Amazônia, o IBGE diz que o bioma perdeu área equivalente ao estado de São Paulo. As pastagens já somam 426 mil Km², quase o mesmo que São Paulo mais Paraná. É preciso considerar ainda a destruição simultânea da biodiversidade, com o risco de extinção da fauna e da flora regionais. 

O mais curioso é que a Mata Atlântica foi o bioma que menos sofreu, mas que mesmo assim perdeu 7% de sua cobertura vegetal. Talvez porque sua área já está bem reduzida e por isso relativamente cercada pelos atuais programas de preservação. 

As mudanças climáticas impuseram de vez a importância da preservação das matas para o desenvolvimento econômico. Não se trata de questão ideológica ou de opção de cuidar ou não das florestas – sem elas, as transformações econômicas serão drásticas e os consumidores sumirão. 

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