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Domingo

12 de Julho de 2020

Editorial A Tribuna

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Crise sem precedentes

Há uma crise sem modelos de solução experimentados. Por isso, o pragmatismo será bem-vindo

Não houve surpresa. A queda do Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre já era esperada devido ao impacto profundo da pandemia do novo coronavírus, que no período estudado recaiu sobre a segunda quinzena de março.De acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) o PIB encolheu 1,5% na comparação do período de janeiro a março com o imediatamente anterior (outubro a dezembro de 2019). Por setores da avaliação, apenas agropecuária (0,6%), investimentos (3,1%) e consumo do governo (0,2%) tiveram resultado positivo também na mesma base de comparação. Realmente o campo proporcionou uma excelente safra ao Brasil, porém, esse setor não tem tamanho suficiente para esticar o PIB. Em valores nominais, considerando o total nacional de R$ 1,8 trilhão no primeiro trimestre, o agronegócio entra com R$ 119,7 bilhões – somente 6,6%. A indústria, que sofreu um tombo de 1,4%, produziu bem mais – R$ 350,5 bilhões ou 16,9%. Já os serviços, que caíram mais ainda, 1,6%, geraram R$ 1,1 trilhão (61%). 

Portanto, não há muito o que comemorar. Principalmente se for observado que essa queda nacional trimestral de 1,5%, anualizada, seria de 6%. Como o desempenho da economia em abril e maio foi quase anulado pelo isolamento social, com destaque em serviços, e os próximos meses, com reabertura sob restrições que agora são anunciadas, a produção de riquezas permanecerá anêmica. Por isso, já há muitos bancos que preveem uma queda do PIB de mais de 10%, talvez impressionantes 12%. 

Lamentar também não vai resolver ou pelo menos amenizar o problema. Resta saber que armas o governo vai utilizar. Não se trata de medidas de extraordinárias para evitar mortes de empresas e eliminação de empregos em meio à pandemia. Mas, sim o que será realizado no pós-Covid-19 para dar ânimo frente a uma recessão que pode avançar pelo próximo ano. É cada vez menor o número de economistas que acha que essa crise vai ser forte e curta. Infelizmente pode durar mais do que se suportaria. 

O ministro da Economia, Paulo Guedes, voltou a sinalizar nesta semana que mantém a aposta em reformas e privatizações. O Congresso indica indisposição para esses temas, o que pode ser alterado se o Palácio do Planalto oferecer muito mais cargos para seduzir o Centrão. Mesmo que se consiga isso, qual será o impacto disso no curto (próximos dois semestres) e médio (meados de 2021 para frente) prazos na geração de empregos e estímulo ao faturamento das empresas? Suspeita-se que será muito pouco. É provável que o governo, por uma questão de sobrevivência política em 2021 e 2022, adote medidas estimuladoras para catapultar a economia. Para isso, será preciso contrariar a ideologia econômica de Guedes, avesso a aumentar a presença do Estado nos negócios. Entretanto, há uma crise sem modelos de solução experimentados. O pragmatismo será bem-vindo. 

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