EDIÇÃO DIGITAL

Segunda-feira

14 de Outubro de 2019

Editorial A Tribuna

A Tribuna é o maior e mais antigo jornal impresso a circular na Baixada Santista. São 125 anos contando e publicando histórias

Crise em Hong Kong

Há o temor da escalada de violência, com reações mais fortes do governo chinês

Há dois meses protestos acontecem todos os dias em Hong Kong. Tudo começou com um projeto de lei do governo local que permitiria a extradição de cidadãos de Hong Kong para a China Continental. Embora tenha havido recuo nessa proposta, o tema incendiou o território, com exigências de maior liberdade, e incluindo a renúncia da governadora local, Carrie Lan, indicada por Pequim. Nas últimas semanas os manifestantes interromperam o funcionamento do metrô e o transporte local, invadiram as ruas e paralisaram o aeroporto, provocando o cancelamento de centenas de voos.

A tensão é cada vez maior. De um lado, os protestos não diminuíram ou retrocederam, enquanto a repressão aumenta, com ameaças crescentes sobre os manifestantes. Destaque-se que, a exemplo de outros movimentos que têm surgido no mundo, não há líderes, e os protestos são organizados a partir das redes sociais. Eles têm sido pacíficos, mas terminam quase sempre com confrontos com as forças de segurança.

É inevitável a lembrança com as manifestações que ocorreram há 30 anos, na Praça Tiananmen, em Pequim, quando estudantes foram duramente reprimidos após uma série de protestos, culminando na morte de muitos deles, sem que até hoje fosse estabelecido o número exato de vítimas. No caso atual de Hong Kong, colônia britânica até 1997, e devolvida então à China, mas mantendo certo grau de autonomia, não há dúvida que os ativistas exigem mais democracia em seu território.

Há o temor da escalada de violência, com reações mais fortes do governo chinês. O envio de tropas a Hong Kong, porém, oferece grandes riscos e problemas. A situação é diferente de 30 anos passados: o regime de Pequim não tem o controle pleno sobre o território, e é provável que a resistência local seja muito maior e mais prolongada. 

A intervenção teria ainda como consequência enfraquecer a confiança de empresas nas atividades desenvolvidas em Hong Kong. Seu sistema jurídico, baseado na lei britânica, tem sido importante para a garantia de negócios que lá acontecem. É fato que o território representa hoje parcela muito menor do PIB chinês do que em 1997, quando foi devolvido, mas ainda assim é importante para a economia do país. Os empréstimos de bancos internacionais, sediados em Hong Kong, muitos deles para empresas chinesas, mais do que dobraram nos últimos vinte anos, e o número de firmas multinacionais com sedes regionais no território cresceram quase 70%.

Há ainda a luta geopolítica entre China e Estados Unidos, que pode se agravar com a crise de Hong Kong. Reações violentas irão aumentar o clamor por mais sanções econômicas dos EUA, afetando negócios e causando tensão mundial. A repressão militar não é, definitivamente, a solução, pois ameaça, no final das contas, a estabilidade e a prosperidade chinesa. 

Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha editorial e ideológica do Grupo Tribuna.
As empresas que formam o Grupo Tribuna não se responsabilizam e nem podem ser responsabilizadas pelos artigos publicados neste espaço.