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Segunda-feira

16 de Setembro de 2019

Editorial A Tribuna

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Corte de verbas

É preciso respeitar a autonomia universitária e reconhecer que o ambiente acadêmico é repleto de contestações e manifestações, legítimas na democracia

A ação do Ministério da Educação (MEC) tem recebido críticas desde o início do atual governo. Após um período de conflitos e disputa pelo poder entre diferentes correntes, que marcou a gestão do ministro Ricardo Vélez Rodríguez, sua substituição por Abraham Weintraub sinalizou a supremacia do grupo ligado ao escritor Olavo de Carvalho. Não se alterou, porém, a ofensiva ideológica contra posições consideradas à esquerda que estariam presentes no ambiente educacional brasileiro.

Duas ações recentes foram marcantes. De um lado, o novo ministro, tendo logo em seguida o apoio do presidente Jair Bolsonaro, defendeu a redução de investimentos em cursos de filosofia e sociologia nas universidades federais, sob o argumento que era preciso focar áreas que geram "retorno imediato ao contribuinte". Na realidade, não se tratava apenas de tratar essas áreas como inúteis e improdutivas, e sim de evitar a chamada doutrinação de esquerda que seria predominante nas universidades, principalmente no campo das ciências humanas.

No início desta semana, o MEC anunciou o bloqueio de 30% nas verbas de três universidades federais - a UnB, a Ufba e a UFF. O ministro Weintraub indicou que o ato era de retaliação a atividades políticas nessas unidades, que ele chamou de "balbúrdia" e um suposto fraco rendimento acadêmico. Suas declarações foram que a universidade deve "estar com sobra de dinheiro para fazer bagunça e evento ridículo", dando como exemplo a presença de lideranças do Movimento Sem-Terra e "gente pelada" dentro do campus.

A afirmação do ministro foi logo contestada. As três universidades estão entre as 20 melhores do país segundo o Ranking Universitário Folha (RUF), com crescimento de sua produção científica, entre 2008 e 2017, variando de 84%a 109%, superando a média nacional de 65%, de acordo com a base internacional Web of Science.

O MEC, sem reconhecer que não poderia fazer tais cortes por motivos ideológicos, fato que fere a Constituição Federal, anunciou logo em seguida medida ainda mais drástica. O bloqueio de 30% foi estendido a todas as universidades federais, decisão que, se confirmada, irá provocar grandes problemas em seu custeio básico, e poderá levar o caos ao setor.

O Brasil precisa de política educacional. É preciso respeitar a autonomia universitária e reconhecer que o ambiente acadêmico é repleto de contestações e manifestações, legítimas na democracia. Justifica-se a preocupação em melhorar a qualidade do ensino de maneira geral, notadamente no básico - fazer com que os alunos aprendam a ler, escrever e interpretar textos, e realizar cálculos e operações matemáticas elementares - mas não se deve insistir em afirmações que há pregação ideológica de esquerda nas escolas e universidades, fato que, na maioria dos casos, constitui fantasia e exagero.

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