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Sexta-feira

22 de Novembro de 2019

Editorial A Tribuna

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Contratempos na política externa

Governo do presidente Jair Bolsonaro anunciou mudança importante na política externa no início do mandato

O governo do presidente Jair Bolsonaro anunciou mudança importante na política externa no início do mandato. Os EUA passaram a ser aliados preferenciais, e o presidente apressou-se em mostrar alinhamento, como ficou claro na visita que realizou ao presidente Donald Trump.

Várias concessões foram feitas: no plano comercial, o Brasil aceitou abrir uma cota, livre de tarifa de importação, para 750 mil toneladas de trigo dos EUA; e foi elevada de 600 milhões para 750 milhões de litros a cota de importação anual de etanol americano também sem tarifas.

Houve ainda medidas mais amplas, como a aceitação brasileira de abrir mão do tratamento especial diferenciado ao qual tinha direito na Organização Mundial do Comércio (OMC), por se declarar um país em desenvolvimento.

A iniciativa visava assegurar o ingresso do país na Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne as principais economias do mundo, que recebeu inicialmente o apoio do presidente Trump. Outra medida foi dispensar o visto de turistas dos EUA, Canadá, Austrália, Japão e agora China para entrada no Brasil, sem reciprocidade para brasileiros que visitarem esses países.

A realidade logo veio. Carta do secretário de Estado dos EUA, Mike Pompeo, divulgada em outubro, apoiou o ingresso na OCDE apenas da Argentina e Romênia. O mal estar causado pela declaração provocou recuo de Pompeo, mas o assunto ainda não foi definitivamente esclarecido.

Houve agora outro revés: os EUA negaram a abertura de seu mercado para a carne bovina "in natura" do Brasil, pleito que constava nas negociações de uma parceria estratégica acertada com Donald Trump. Inspeção técnica realizada pelo Departamento de Agricultura norte-americano culminou com a solicitação de informações adicionais ao governo brasileiro e nova vistoria sobre a qualidade da carne deve ser programada. Segundo especialistas, isso pode atrasar a abertura do mercado americano em cerca de um ano.

Não há ainda garantia alguma que a inspeção seja favorável. Os dois episódios - OCDE e o veto à carne bovina - confirmam que nas negociações internacionais não prevalecem acordos políticos, e sim considerações técnicas e interesses. Não há como fugir a essa lógica, mesmo que, em determinadas situações, as decisões contrariem a vontade dos governantes. O melhor, portanto, é o diálogo cauteloso, mas firme, que não faz concessões prévias sem a certeza das respostas e contrapartidas.

Há espaço para que a reabertura do mercado de carne bovina ainda aconteça, em prazo menor. Mas vai depender do empenho e do trabalho dos negociadores brasileiros, e uma comitiva, liderada pela ministra da Agricultura, Tereza Cristina, segue para os EUA no dia 17. Espera-se que isso traga resultados e não mais decepções.

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