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Terça-feira

15 de Outubro de 2019

Editorial A Tribuna

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Brasil e a desigualdade

Desde o fim de 2014 até junho deste ano, a renda per capita do trabalho dos 10% mais ricos subiu 2,5% acima da inflação; já o rendimento dos 50% mais pobres despencou 17,1%

Dados da FGV-Social mostram que piorou a concentração de renda no Brasil nos últimos anos. Desde o fim de 2014 até junho deste ano, período que compreende a profunda recessão recente, a renda per capita do trabalho dos 10% mais ricos subiu 2,5% acima da inflação. Enquanto isso, o rendimento dos 50% mais pobres despencou 17,1%, e o da parcela intermediária (correspondente aos restantes 40% da população) caiu 4,2%.

Como consequência, o índice de Gini, que mede a desigualdade cresceu, passando a 0,629, muito próximo do recorde da série histórica desde 2012 (medido de 0 a 1; quanto mais perto de 1 pior é a desigualdade). Segundo o Relatório da Desigualdade Global, da Escola de Economia de Paris, o Brasil é hoje o país democrático que mais concentra renda no 1% do topo da pirâmide, superado apenas pelo Qatar, emirado árabe absolutista. 

Essa constatação é baseada em dados que combinam pesquisas domiciliares, contas nacionais e declarações de imposto de renda. Levar em conta todos esses indicadores é fundamental para compreender a realidade dos mais ricos, cuja renda não é, na maior parte, proveniente de rendimentos do trabalho.

Os números revelam que os super-ricos (que correspondem a 1% do total) têm para si 28,3% dos rendimentos brutos totais do país, e cada um deles recebe individualmente R$ 140 mil por mês pelo conjunto de todas as suas rendas. A desigualdade é impressionante: os 50% mais pobres (71,2 milhões de pessoas, com renda média de R$ 1.200 mensais) ficam com apenas 13,9% do conjunto de todos os rendimentos, menos da metade do que é recebido pelo 1% mais rico.

Entre 2001 e 2015, todas as faixas expandiram suas rendas. O crescimento foi de 71,5% entre os mais pobres, 69% entre os mais ricos, e 44% na classe média, indicando que esta foi a que menos ganhou no período. Mas o quadro se inverte dramaticamente entre 2014 e junho de 2019: os mais pobres tiveram suas rendas encolhidas em 17,1% enquanto os muito ricos avançaram 10,1%.

Não surpreende a insatisfação que toma conta da classe média há algum tempo, e que desaguou em atitudes de protesto nos últimos anos. Mas o mais dramático é o crescimento da pobreza extrema, verificado agora. 

O combate à desigualdade não é apenas imperativo ético ou moral. É questão de justiça, e tem grandes implicações econômicas: um país desigual tem consumo menor, baixa produtividade (fruto das más condições de educação para os pobres) e vê a explosão da violência que traz perdas e prejuízos a todos, a exigir ações e políticas para que tal situação seja revertida.

O crescimento econômico é a condição absolutamente necessária, como demonstram os dados pré-crise, mas não suficiente: é preciso garantir que os ganhos cheguem a todos, e não beneficiem apenas o topo da pirâmide. 

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