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Terça-feira

31 de Março de 2020

Editorial A Tribuna

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Bolsas em Portugal

Em meio a sucessivos cortes de financiamento à ciência no País, nota-se que muitos pesquisadores têm buscado alternativas no exterior

A situação da pesquisa científica no Brasil é grave. Houve, neste ano, a suspensão de bolsas de pós-graduação em razão da falta de verbas, que atingiram as duas principais agências de financiamento, a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes) e o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). Parte delas foi reativada, mas há ainda muitos estudantes sem acesso ao auxílio. Além disso, vários programas, como apoio a eventos científicos, cooperação internacional e bolsas a estudantes estrangeiros no País, estão suspensos, sem previsão de retorno. 

O orçamento da Capes para 2020 foi reduzido à metade em relação ao atual exercício, e discute-se, no âmbito do governo, a fusão das duas agências, proposta que tem sido repudiada pela comunidade acadêmica, alegando que o papel delas é distinto e complementar, não se justificando a incorporação que só iria reduzir ainda mais as verbas destinadas à pesquisa no Brasil. 

Em meio a esses sucessivos cortes de financiamento à ciência no País, nota-se que muitos pesquisadores têm buscado alternativas no exterior. Dados da Fundação para a Ciência e Tecnologia (FCT), de Portugal, mostram o crescimento da concessão de bolsas a brasileiros: em 2016, apenas três alunos tiveram bolsas concedidas pelo órgão; neste ano, até setembro, o número subiu para 62, alta de 1.966%. 

A quantidade pode ser ainda maior, já que muitos possuem dupla cidadania portuguesa ou de outro país da União Europeia, não tendo sido contabilizados como brasileiros. A disputa é grande: somente em 2019, 388 candidatos apresentaram pleitos junto à FCT, sendo aprovadas 62 bolsas (16% do total). A intenção, na maioria dos casos, é buscar a bolsa internacional como alternativa à ausência de possibilidades no Brasil, com ganhos evidentes, uma vez que diversifica a pesquisa, com chances profissionais futuras muito mais amplas. 

O País deve incentivar programas de intercâmbio, como as bolsas sanduíche para doutorandos no exterior, por meio das quais os estudantes permanecem, por um período, em determinado país realizando suas pesquisas em instituições de excelência, com orientação de professores locais e acesso a bibliotecas e centros de documentação. São necessários também programas de pós-doutoramento, acessíveis a pesquisadores nacionais, para realizar seu trabalho no exterior. 

Nestes casos, permanece o vínculo nacional. Mas, para que isso se realize, é preciso verbas e apoio institucional, hoje cada vez mais raros. Não é exagero falar em “fuga de cérebros”, exatamente de jovens talentosos que consideram que não é mais possível fazer pesquisa no Brasil. Eles se vão, não retornam, e o País perde cada vez mais espaços no cenário internacional, com consequências graves para o desenvolvimento nacional.  

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