Editorial A Tribuna

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Blindagem desrespeitosa

O caso da cueca também escancara privilégios do Parlamento que ninguém consegue tirar

A operação de blindagem do senador Chico Rodrigues (DEM-RR) pela cúpula do Senado demonstra total desrespeito aos brasileiros. Apesar do caso do parlamentar ser visto com escárnio, sendo conhecido no País como o político flagrado com a cueca recheada em mais de R$ 30 mil, é dos mais graves, pois se trata de suspeita de corrupção. A investigação apontou que Rodrigues desviou recursos da saúde destinados ao combate à covid-19.

Uma das linhas em averiguação é que o senador, ex-vice-líder do governo, utilizou emenda parlamentar destinada por ele a seu estado, onde, assim como em outras regiões do País, as licitações foram dispensadas para acelerar medidas de prevenção e socorro às vítimas do novo coronavírus. Ele nega qualquer irregularidade e diz que o dinheiro era destinado a funcionários de sua empresa e que, ao ser surpreendido pela PF, se assustou e escondeu de impulso os recursos na cueca. O que impressiona é como os políticos adoram operar com dinheiro em espécie, o que entre cidadãos comuns, mesmo os mais abastados, não tem a mínima praticidade, principalmente pela questão da segurança.

O descaramento com a blindagem do representante de Roraima tem duas explicações de fácil entendimento. Uma delas é de que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (DEM-RR), além de ser colega de partido, está mais sensível às pressões por querer se reeleger para o comando da casa por meio de brechas na legislação. Na segunda questão do caso, há uma demonstração de força dos senadores, na verdade, mirando a sobrevivência de cada um. Acuados de tempos em tempos por operações da Lava Jato e decisões monocráticas do Supremo Tribunal Federal, os parlamentares querem se fortalecer contra o que avaliam como intromissão da Justiça. O raciocínio é bem simples: “posso ser o próximo amanhã”.

O caso da cueca também escancara privilégios do Parlamento que ninguém consegue tirar. Em uma estratégia grosseira típica de feudo eleitoral, Rodrigues tem como suplente o filho Pedro. Chico vai se afastar por estratégicos 121 dias (o tempo mínimo exigido para passar o bastão ao suplente é de 120 dias) e Pedro assumirá o cargo com todos os benefícios do pai – salário de R$ 33,7 mil, apartamento funcional ou auxílio-moradia de R$ 5,5 mil (o que achar mais interessante), auxílio-mudança para Brasília no valor de um salário mensal e direito de realizar despesas com saúde até R$ 40,7 mil por mês.

É inadmissível que uma maioria dos senadores concorde com essa blindagem, que tem sentido apenas para quem vive numa bolha alheia ao País. O Parlamento já tem organismo apropriado para tratar casos como o do senador da cueca, que é o Conselho de Ética. Infelizmente, a justificativa absurda para não convocá-lo é a suspensão das reuniões devido à pandemia, apesar da alternativa virtual. Que retomem o bom senso e o respeito à população. 

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