Editorial A Tribuna

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As curvas da estrada de Santos

Apenas no final do século 18 foi construída nova estrada, a Calçada de Lorena, inaugurada em 1792, que ziguezagueava pelas escarpas da Serra do Mar

A ligação entre o litoral e o planalto foi fundamental para o desenvolvimento econômico de São Paulo. Embora existissem, desde os tempos coloniais, vários caminhos indígenas, sendo o principal a Trilha dos Tupiniquins (também chamada de Caminho de Paranapiacaba ou Caminho de Piaçaguera), eles eram precários e inadequados para o transporte regular de pessoas e cargas. Apenas no final do século 18 foi construída nova estrada, a Calçada de Lorena, inaugurada em 1792, que ziguezagueava pelas escarpas da Serra do Mar, e permitia a passagem de tropas de animais com suas cargas, constituindo o primeiro "corredor de exportação" da época, fundamental para permitir o escoamento da crescente produção de açúcar do interior paulista.

Ao longo do século 19, a ligação foi aprimorada. A Estrada da Maioridade (alusão à maioridade de D. Pedro II em 1840) foi concluída em 1846, e, na década de 1860, o trecho do planalto sofre melhorias, alterando-se sua denominação para Estrada do Vergueiro. O conjunto passa a ser conhecido como Caminho do Mar no início do século 20, quando a estrada foi calçada com macadame, e logo depois se tornou a primeira rodovia pavimentada com concreto da América Latina, facilitando o tráfego de automóveis.

A propósito da comemoração do Centenário da Independência, em 1922, foram construídos, ao longo da estrada, vários edifícios e monumentos, entre os quais o Pouso de Paranapiacaba, bem no alto da serra; o Rancho da Maioridade, inicialmente abrigando uma garagem-oficina para conserto de carros e acomodação para eventual pernoite (e erroneamente identificado como ponto de encontro entre D. Pedro I e a Marquesa de Santos, uma vez que sua edificação ocorreu cem anos depois); e o Belvedere e o Padrão de Lorena, que marcam os cruzamentos da nova estrada com a antiga Calçada de Lorena.

A estrada foi a ligação rodoviária entre a Baixada Santista e a Capital por várias décadas, até a construção da Via Anchieta, cuja primeira pista foi inaugurada em 1947. Ficou conhecida por suas curvas, e esteve aberta ao tráfego de veículos até a década de 1990. Desde então ela permanece fechada, sendo a visitação permitida apenas com autorizações especiais.

Foi anunciado agora que o governo estadual abriu consulta pública para a concessão do passeio turístico do Caminho do Mar, a Estrada Velha de Santos. O edital a ser lançado prevê que a empresa vencedora torne o trajeto mais atrativo, com recuperação dos monumentos, estimulando assim o turismo, o entretenimento e o convívio social.

A iniciativa merece amplo apoio. Trata-se de garantir a preservação do patrimônio histórico e ambiental, e a presença da iniciativa privada, com adequada regulação, garante os investimentos necessários para que a estrada possa ser revitalizada e aberta a todos.

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