Editorial A Tribuna

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A vacina não tem lado

Considerando a animosidade entre os lados, teria sido melhor deixar as tratativas para os encarregados técnicos

A briga política entre o presidente Jair Bolsonaro e o governador João Doria em relação à vacina chinesa contra a Covid-19 é inaceitável devido a seus reflexos para a população. O principal resultado negativo é piorar a possibilidade - bem elevada - de não haver doses suficientes do imunizante em curto espaço de tempo. O Palácio do Planalto errou lamentavelmente ao sobrepor a política à ciência, pois não há garantia de que a aposta do Governo Federal, a parceria com a Universidade de Oxford, concluirá seus estudos tão rapidamente como a do país asiático com São Paulo. Numa hipótese negativa, existe o risco dos estudos ingleses, assim como os da China, apresentarem entraves, o que é natural no meio científico.

No final das contas, esse imbróglio entre os dois virtuais rivais das eleições de 2022 escancara o fracasso do País em investir em pesquisas e inovação tecnológica. O Brasil é um dos poucos países com população numerosa que não lidera ou centraliza o desenvolvimento de uma vacina contra o novo coronavírus, apesar de ter institutos experientes e renomados (Butantan, Fiocruz, o mineiro Ezequiel Dias e o paraense Evandro Chagas). O País, atropelado pela urgência de uma nova doença de alta letalidade e rápida disseminação, fechou parcerias de transferência de tecnologia, o que pode não se realizar e nem ser almejado, caso o controle da doença seja rápido. Esses acordos, conforme reportagem do Grupo Folha, podem levar mais de dez anos para serem concluídos, sendo que o único que saiu do papel foi o da gripe.

Na confusão de quarta-feira, Bolsonaro expôs desnecessariamente seu ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, que já tem uma imagem desgastada por ser um nome sem relação anterior com o meio médico e pela atabalhoada ação do Governo Federal no combate à pandemia. O presidente desautorizou publicamente Pazuello por fechar acordo com São Paulo para aquisição da vacina chinesa na fase inicial, que é a importação e envasamento no Butantan, antes da transferência de tecnologia se efetivar. Sem critérios científicos, Bolsonaro reagiu mediante postagens de alguns seguidores que criticaram o acerto federal com Doria e vetou a parceria para atender essa ala ideológica que vive atrás das redes sociais. Esse revés de fundo político, mas de efeitos técnicos, irritou a ala militar e assustou os assessores pelo arranjo improvisado.

O chefe do Executivo da nação não pode agir assim, aos trancos e barrancos, sem medir as consequências. O governador também merece reprimendas profundas, porque também tentou obter exposição política ao fechar acordo com um ministro de seu grande rival político. O certo, considerando a animosidade entre os lados, teria sido melhor deixar todas as tratativas e anúncios para os encarregados técnicos. Mas isso exigiria uma negociação de bastidores e agir de forma racional nos últimos tempos tem sido bem raro.

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