Editorial A Tribuna

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A retomada chinesa

Se o Estado gastador persistir por muito mais tempo, ele aumentará os juros para atrair os credores

Enquanto a grande maioria dos países do mundo amarga uma recessão imposta pela pandemia, a China vai ostentar neste ano crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) entre 2% e 4%. Algumas economias asiáticas devem ter resultados pelo menos positivos ou não tão negativos, considerando que no continente há casos notáveis de baixa incidência da covid-19, como o Vietnã. Na China, apesar de ter sido o epicentro da infecção, o sucesso foi ter conseguido conter a transmissão com eficiência (o que foi facilitado pelo governo centralizado e o costume do uso de máscara) e sair do isolamento primeiro, o que também torna a comparação de desempenhos pouco justa. O vigor impressiona, porque a recuperação é muito robusta, mas tem um ponto em comum no que os demais governos fizeram para estimular suas economias frente ao novo coronavírus: despejo de quantidades inéditas de recursos estatais no setor privado para manter a liquidez, isto é, o capital fluindo.

A China obtém seus resultados sem tentar inventar a roda - apenas, repetiu o que fez de forma gradual ao longo das décadas e em grande intensidade na crise de 2008. O país historicamente investiu em infraestrutura para puxar sua economia. Já o Brasil incentivou nas últimas décadas a tomada de crédito e transferência de renda para forçar o consumo. Como não há uma capacidade de poupança das famílias e o governo usou recursos estatais para esse fim ao custo de juros elevados, o endividamento travou tanto o setor público como o privado. As taxas caíram, mas a conta ainda está sendo paga.

Na China, como não há previdência como as do ocidente, os trabalhadores são obrigados a poupar para o futuro, um capital gigantesco que financia o país. Portanto, diz-se que assim como a baixa poupança brasileira é o ponto fraco do Brasil, a alta capacidade de poupar é a vantagem da China. Com recursos internos e saldos gigantescos das exportações, a China consegue bancar sua infraestrutura e suas aspirações de potência global. 

A economia brasileira também exporta muito, mas de forma cíclica, pois depende do dólar favorável devido à baixa competitividade. Sem a vantagem do câmbio, o custo Brasil (carga tributária, infraestrutura defasada e mão de obra cara e despreparada), torna o produto brasileiro pouco competitivo e as importações crescem com essa brecha.

O exemplo chinês na economia, não seu autoritarismo, é importante para o Brasil por escancarar as debilidades brasileiras. É preciso começar a investir em formação intelectual, ciência (dependência por vacina e tecnologia estrangeira são provas disso) e atração de capitais externos e formação de poupança interna para financiar a infraestrutura e a inovação das empresas. Se a queda dos juros persistir em níveis baixos nos próximos anos o dinheiro mais barato vai impulsionar a economia. Mas se o Estado gastador persistir, ele subirá os juros para atrair os credores.

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