Editorial A Tribuna

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A ameaça da incerteza

Continua a triste percepção de que o Brasil é uma economia intermediária, ineficiente e de baixo desenvolvimento social

Apesar dos economistas preverem um ano fraco para o dólar nos mercados mundiais devido à injeção de recursos pelo governo americano para estimular a economia por lá, no Brasil, a moeda continua com fôlego. Esse movimento contrário indica que o País não vai bem e que surpresas desagradáveis podem frustrar expectativas de uma recuperação mais forte neste ano.

Na última sexta-feira, o real foi a divisa mais fraca entre os países emergentes, como Turquia e África do Sul, onde ocorreram valorizações locais. No Brasil, o dólar já soma 6% de alta neste ano. A volatilidade do câmbio é por tradição das mais acentuadas dos ativos financeiros. Porém, esse vigor do dólar no Brasil impressiona, um sinal claro de muita desconfiança.

No caso brasileiro, o diagnóstico é fácil. Se por um lado os juros básicos muito baixos, inclusive negativos (taxa Selic de 2% ao ano frente aos 4,52% anuais da inflação pelo IPCA), o investidor migra para o câmbio em busca de melhor remuneração. Simultaneamente, como há muita incerteza, já há o movimento rumo à moeda da economia mais estável e robusta, que é a americana, também emissora dos títulos públicos mais confiáveis. E por que há todo esse temor? Basta observar as notícias dos últimos dias. Sem reformas e com discursos contrários ao teto de gastos (sistema que impede o governo de gastar acima da inflação), como defendeu o candidato favorito à presidência do Senado, Rodrigo Pacheco (DEM-MG), o mercado entendeu que o risco fiscal está mais elevado. Neste caso, se consumado, o efeito é o governo subir os juros para atrair capitais para sustentar suas despesas desenfreadas.

Assim, o investimento (nas indústrias, serviços e agronegócio) e o consumo das famílias despencam. Para que investir em um País que patina se as taxas dos títulos do Tesouro Nacional pagam bem mais? O resultado final já é bem conhecido dos brasileiros, de baixo crescimento ou recessão e a continuidade da triste percepção de que o Brasil é um país fadado a ser do time das economias intermediárias, ineficientes e de baixo desenvolvimento social. 

Depois de dois anos no poder, o presidente Jair Bolsonaro não fez privatizações como prometido na campanha eleitoral e das reformas apenas realizou a previdenciária, aliás desidratada. As outras, como a administrativa e tributária, repousam espremidas pelo lobby das corporações. Enquanto os servidores usam seu peso eleitoral para pressionar parlamentares, os setores econômicos lutam cada um para manter suas respectivas isenções de impostos. O raciocínio é ficar como está, pois não se sabe no que a reforma vai dar. O reflexo é um Brasil atolado, enquanto seu principal dirigente, de olho em 2022, não contraria os interesses das classes, mas nada realiza. Simultaneamente pouco fez, aliás, prejudicou e muito – por uma campanha de vacinação eficiente para acelerar a volta do crescimento. O momento é dos mais delicados. 

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