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Quarta-feira

23 de Outubro de 2019

Editorial A Tribuna

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A última sessão

Fechamento do Espaço de Cinema de Santos é enorme perda cultural

O tradicional conjunto de cinemas localizado no Shopping Miramar, em Santos, encerrou suas atividades nesta quarta-feira (14). Existente há pouco mais de 12 anos, em uma primeira fase como Espaço Unibanco de Cinema, tornou-se importante reduto cultural da cidade e região, exibindo filmes de qualidade e sediando o Festival Varilux, que reunia as principais obras recentes do cinema francês. 

É exagero definir o atual Espaço de Cinema de Santos como exclusivo de "filmes de arte". Essa denominação, que carrega muitas imprecisões, refere-se, em geral, a obras clássicas, de diretores renomados, com linguagem inovadora e hermética, e não acessíveis ao grande público. Não era essa a proposta do conjunto de cinemas do Miramar Shopping: a programação era feita com filmes de qualidade, principalmente europeus, mas com interesse bastante amplo. Produções nacionais, que fogem ao esquema predominante de comédias populares, eram ali exibidas regularmente. Filmes concorrentes e vencedores do Oscar, da indústria norte-americana, também faziam parte de sua grade. Destaque-se que havia bom público, como destacou o diretor de programação do Espaço, Adhemar Oliveira, embora insuficiente para cobrir as despesas.

O fechamento do conjunto é enorme perda cultural. As três salas de cinema ali existentes farão muita falta, e haverá um grande vazio que reflete, infelizmente, a diminuição do interesse por produções diferenciadas, que rompem o esquema dominante dos blockbusters. É preciso, porém, compreender as razões econômicas que levaram ao fim das atividades do Espaço de Cinema, e que estão ligadas à impossibilidade de custeio das despesas com base nas receitas obtidas.

Cultura, de modo geral, não se sustenta apenas com bilheteria. É preciso outras fontes de recursos, que passam por apoios privados e por subvenções públicas. Em Santos há o Cine Arte Posto 4, mantido pela Prefeitura Municipal, que faz um papel importante, mas limitado, dado seu espaço reduzido e a limitação de programação. Outro exemplo recente ocorreu em São Paulo, quando houve enorme mobilização para manter aberto e funcionamento o tradicional Cine Belas Artes, na rua da Consolação, que existe desde 1956, e que hoje funciona com o patrocínio da cerveja Petra, do grupo Petrópolis.

Talvez seja um sonho imaginar que empresas privadas possam viabilizar a volta ou a continuidade de um espaço como o que existia até ontem no Miramar Shopping. Mas é importante mobilizar a sociedade local nesse sentido. Se isso não for possível, pelo menos se espera que esse nicho de mercado possa interessar a empresas que já atuam no segmento. Nesse sentido, é muito importante garantir o Festival Varilux na cidade em 2020, e abrir espaços, em algumas salas existentes, para a exibição de filmes de qualidade, a exemplo do que fazia o Espaço de Cinema. 

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