(Carlos Nogueira/Arquivo/AT) Os dados sobre o comércio exterior, pesquisas recentes e entrevistas com exportadores indicam que o Brasil se saiu bem no esforço para encontrar novos mercados para os produtos atingidos pelo tarifaço. Segmentos, como madeira, pescados e industrializados com vendas muito concentradas nos Estados Unidos, ainda enfrentam dificuldades, mas o País conseguiu manter o saldo comercial (exportações menos importações) em nível elevado, acumulando US\$ 52 bilhões de janeiro a outubro. Em igual período do ano passado, o resultado foi melhor, de US\$ 62 bilhões, uma queda de 16%. Porém, em 2025, houve o efeito do dólar, que desvalorizou 15%. Os exportadores mais competitivos, geralmente commodities (agronegócio e minerais), conseguiram realocar suas produções para outros países, chegando até a vender mais do que antes do tarifaço. Conforme levantamento do portal do jornal Valor Econômico, com as tarifas de 50%, os embarques do café aos EUA caíram 16,7%, mas subiram 14,5% para as outras economias. Em receita, os cafeicultores levaram a melhor, faturando US\$ 338 milhões a mais, após perda de US\$ 71 milhões com os EUA e acréscimo de US\$ 409 milhões com o restante do mundo. Fenômeno parecido foi registrado com a carne bovina congelada, segundo o Valor. As vendas aos EUA caíram 60,5% com o tarifaço, mas cresceram 64,3% aos outros países. Na conta financeira, o resultado foi muito melhor do que com o café, com os frigoríficos perdendo US\$ 165 milhões com os EUA e acrescentando US\$ 1,7 bilhão com os demais mercados, com ganho final de US\$ 1,535 bilhão. Neste produto, houve uma disparada de vendas ao México, com alta de 174%. A China também comprou mais bovinos do Brasil, avanço de 66%, entretanto, sobre uma quantidade anterior já elevada. Essa rápida reação brasileira não deve servir de justificativa para deixar o mercado americano de lado ou se esforçar menos por um acordo comercial – aliás, a Casa Branca sinalizou que vai retirar ou reduzir as tarifas do café. A economia mais rica do mundo é muito importante para o Brasil por comprar mais produtos de maior valor agregado, os industrializados, que não interessam aos chineses. Por outro lado, deixar de exportar produtos, como a carne, aos EUA significa renunciar a um mercado, desbravado décadas atrás, para os concorrentes, que ganharão escala para enfrentar o País em outras partes no mundo. Independentemente do desfecho das negociações com os EUA, o Governo Lula deveria estudar a fundo o que favoreceu os setores mais competitivos e os pontos fracos dos mais prejudicados. Isso vale não somente para a capacidade de oferecer um bom preço, mas para conseguir corrigir falhas do sistema de crédito para exportar, da burocracia, da logística e até da formação de mão de obra. É um trabalho que leva anos, mas que precisa ser iniciado já para o País se tornar um exportador implacável.