(Paulo Pinto/Agência Brasil) O blecaute na Capital após temporal na noite de sexta-feira – com a concessionária de distribuição de energia, Enel, demorando a retomar o abastecimento – é mais um exemplo de que o País não aprende com erros. As autoridades públicas demonstraram inconformismo, assim como a Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) fez cobranças enquanto órgão regulador, e a própria empresa prometeu sanar suas falhas. O que se tem de concreto é que centenas de milhares de paulistanos até ontem estavam no escuro, com ameaça a pacientes que usam aparelhos médicos vitais em casa. No lado empresarial, padarias, lojistas, indústrias e pequenos comércios amargavam perda de produtos perecíveis. Se a falha se repetiu, é porque não houve o planejamento necessário, tanto das autoridades públicas, do lado da gestão e da fiscalização, como da concessionária para que o apagão não escalasse. Deve-se lembrar que as mudanças climáticas são marcadas por enxurradas cada vez mais intensas e fora de época, o que torna bem possível novos temporais arrasadores, um problema que se multiplica com o gigantismo de São Paulo e sua fiação aérea. O drama paulistano virou combustível para a briga política, porém, o foco precisa permanecer sobre o cidadão e os empresários, que com as experiências recentes devem temer cada temporal que se aproxima. A manifestação é legítima e também ajuda a apontar soluções e responsabilidades, mas tudo tem que ser muito assertivo. No âmbito municipal, o candidato pelo PSOL, Guilherme Boulos, criticou seu adversário, o prefeito Ricardo Nunes (MDB), que o rebateu e cobrou providências do Governo Federal. A Aneel falou da possibilidade de pedir caducidade (fim) do contrato da Enel, que venceria em 2028, e o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) também defendeu essa medida. O ministro das Minas e Energia, Alexandre Silveira, reclamou da fiscalização da Aneel, com quem tem brigado há tempos. Ontem, a Enel previa contar com 2,5 mil funcionários mais 400 enviados por distribuidoras de outros estados. Críticos da privatização aproveitaram para questionar o regime de concessões e alguns lembraram que a Enel é uma estatal italiana. Na verdade, a companhia hoje tem capital pulverizado no mercado, com apenas 23,6% nas mãos do governo da Itália. No ano passado, a Enel, que também atua no Rio de Janeiro e Ceará, reduziu seus investimentos em 16%, de R\$ 1,958 bilhões sobre 2022, mas pelo menos no primeiro semestre de 2024 houve alta de 5%. A caducidade exigiria um longo processo de escolha de substituto e transição, o que talvez não dê certeza ao paulistano de que não haverá mais blecaute, e é isso que precisa ser prioridade. De qualquer forma, esse caso tem que ser aproveitado para tornar as concessões mais eficientes, com preços justos ao consumidor, melhor qualidade dos serviços e segurança jurídica para os investidores, atraindo companhias de ampla competência.