( Agência Brasil ) Um dia depois do Banco Central manter a Selic em 15%, a maior em 19 anos, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) apontou desemprego de 5,8% no segundo trimestre. O efeito dos juros altos costuma demorar seis meses para chegar à economia, mas a taxa já estava em ascensão há quase um ano, por exemplo, a 11,25% em novembro passado. Por isso, economistas reagiram com surpresa ao desempenho do mercado de trabalho, por esperarem uma retração. Mas eles acreditam que a economia tende a esfriar e que o crescimento da oferta de vagas terá um ritmo mais fraco. Há ainda o adicional do tarifaço dos EUA sobre as exportações brasileiras, que poderá causar demissões. Entretanto, esse reflexo se restringe aos estados que mais vendem aos americanos – São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro e Espírito Santo. O desemprego de 5,8%, fechado em junho, é o mais baixo da série histórica do IBGE, que começou em 2012. Trata-se de um resultado muito positivo em comparação ao pior momento, de julho de 2020 a junho de 2021, na pandemia, acima de 14%. O economista do Instituto Brasileiro de Mercado de Capitais (Ibmec), Gilberto Braga, que está entre os analistas que se surpreenderam, em entrevista à Agência Brasil, disse que houve aumento da contratação com carteira assinada, queda da informalidade e crescimento da remuneração média. Essa resiliência tem relação com a injeção de recursos públicos na economia. Para o economista do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), Sandro Sacchet, a manutenção de valores mais altos do Bolsa Família, antes emergenciais com a covid-19 e depois definitivos em 2023, fez com que o consumo das famílias sustentasse o mercado de trabalho mais do que o investimento das empresas, que dependem de crédito agora mais caro. Outro fator que travou o avanço do desemprego foi a ocupação por conta própria, com 25,7 milhões de profissionais, sendo que de 75% a 89% são informais. Conforme o IBGE, isso torna o vigor da economia mais associado ao consumo das famílias e menos às empresas formais. Gradualmente, o País, aos 5,8%, se aproxima do pleno emprego, quando o desemprego é apenas temporário e o trabalhador não tem dificuldades para achar nova ocupação. Por estados, isso na prática já ocorre em Santa Catarina, Rondônia e Mato Grosso, ao redor de 3% de desocupação, reflexo do agronegócio. Porém, em Pernambuco, Bahia e Piauí, o patamar é de 10%. A robustez do mercado de trabalho é observada de perto pelo Banco Central, que acompanha seu ritmo para avaliar os impactos da Selic na economia. O problema é que boa parte do vigor da geração de vagas vem da injeção de recursos públicos, limitada às condições das contas públicas, hoje altamente deficitárias e com dívida em rápida ascensão devido aos juros altos. Na hora em que o governo tiver que cortar seus gastos por falta de caixa, o emprego estará entre os maiores impactados.