A deflação de 0,11% no mês passado é uma excelente notícia para o consumidor, mas que chega um pouco morna para o Banco Central. Houve queda de preços nos segmentos mais importantes à população e que mais pesam no Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) – transportes (combustíveis), alimentação/bebidas e habitação (energia elétrica). Mas parte do arrefecimento inflacionário foi movida por fatores temporários. O principal foi o bônus de Itaipu, valor abatido das contas de luz quando há um saldo na comercialização de energia elétrica da usina. Por isso, em agosto, a despesa com eletricidade caiu 4,21%. Além disso, a promoção de ingressos da Semana do Cinema barateou o item de recreação. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! Os economistas admitem um comportamento “benigno” da inflação, mais fraca mediante os juros elevados pelo Banco Central a 15%, mas com descontos temporários dando um empurrão na deflação de agosto. Esse recuo foi o mais intenso desde setembro de 2022 – o problema é que isso mascarou uma resistência dos serviços. Os analistas atribuem essa persistência à injeção de recursos públicos via programas de transferência de renda (Bolsa Família e Pé-de-Meia), estímulos aos empréstimos, como o consignado, desonerações tributárias e financiamento da habitação. Esse movimento pressionando o consumo não deixa a inflação cair consistentemente, levando o BC a manter a Selic alta por mais tempo. Assim, a estratégia do governo força as contas públicas, inflando a dívida, com o investidor cobrando juros elevados. O BC busca levar a inflação para o teto da meta, de 4,5% ao ano. Em agosto, ela recuou para 5,13%, distante do objetivo, mas caindo mês a mês. Apesar da deflação ajudar a autoridade monetária a caminhar para os 4,5% no próximo ano, essa conquista ainda não está garantida. O BC observa outros componentes, como o dólar, se sua queda vai persistir, e eventuais impactos do tarifaço dos Estados Unidos. Carnes e café ficaram mais baratos no mês passado, mas há relatos de que o aumento de consumo em escala global já está pressionando as cotações. Em meio às apostas do BC, a economia está crescendo menos e o mercado de trabalho perdeu parte de seu vigor, o que desaquece o consumo das famílias. Mas o próximo ano será eleitoral e fica a preocupação de que o presidente Lula poderá turbinar os programas sociais para ampliar sua popularidade entre os mais pobres, seu eleitorado mais numeroso e fiel. O País também depende das influências externas, e algumas delas vêm dos Estados Unidos, que devem começar a reduzir os juros já na próxima semana, sob risco de expandir os cortes por pressão do presidente Donald Trump, influenciando a economia global. No Brasil, poucos economistas apostam em redução da Selic em dezembro, adiada provavelmente para o próximo semestre. A expectativa é de uma Selic de 12,5% ao longo de 2026, um alívio, ainda tímido, para a população e as empresas.