(Padron / Adobe Stock) O acordo comercial entre China e Estados Unidos, na quinta-feira, teve dois desfechos relevantes para o Brasil. O primeiro é que o Brasil passou a ser o país que paga a maior sobretaxa aos Estados Unidos, de 50%, enquanto os chineses conseguiram um “desconto” de 10%, caindo para 47%. O segundo, Pequim concordou em retomar a importação de soja dos Estados Unidos, que havia sido substituída pelas produções brasileira e argentina. A nação asiática vai comprar 12 milhões de toneladas neste ano e 25 milhões a partir de 2026. Apesar do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, ter considerado esse ponto uma vitória, na verdade, com base em dados do ano passado, a China voltará a importar a mesma quantidade à que estava acostumada. Havia a preocupação de que o Brasil, que vende ao redor de 70 milhões de toneladas aos chineses, saísse prejudicado. Aparentemente não foi, apesar dessa conclusão ainda depender de dados mais recentes. Após a reunião entre Trump e o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, no último dia 26, os dois países entraram em negociação. O resultado das conversas entre a China e os EUA deve auxiliar o Brasil a desenvolver sua estratégia frente aos americanos. Mas a China tem uma vantagem que o Brasil não dispõe, a de ser uma potência com amplo arsenal econômico para reagir, indicando que Trump é agressivo com os mais fracos e respeita os fortes e valentes. Assim como na soja, as concessões chinesas aos EUA se deram a partir de negócios que já existiam e que a China suspendeu para confrontar Trump. Por exemplo, no caso das terras raras, o país asiático já monopolizava o fornecimento ao mercado mundial de semicondutores (chips), passando a restringi-lo. Agora, retirou o boicote aos EUA por um ano, uma carta na manga que o presidente Xi Jinping pode voltar a usar se as hostilidades forem retomadas. Aliás, o chinês conseguiu retirar as taxas portuárias cobradas sobre navios da China e adiar o controle da exportação de alta tecnologia americana a empresas chinesas. A capacidade ofensiva do Brasil é muito menor. Entretanto, há vantagens suficientes para o Governo Lula conseguir o que o setor produtivo deseja, o fim da taxa de 40% sobre café e carnes, cujo consumo e preços estão em alta no mercado mundial. A tarifa pesou nos custos das grandes redes de cafeterias e encareceu o hambúrguer mais consumido pelas famílias americanas de menor poder aquisitivo. Por outro lado, o Brasil possui reservas intocadas de terras raras, que, sem a briga entre EUA e China, permaneceriam assim. Agora há uma chance de conseguir capital para explorá-las e depois exportá-las a valores provavelmente bilionários. Se a equipe de Lula souber usar estrategicamente a aliança comercial do Brasil com a China, visto que os EUA estão preocupados com o avanço econômico e diplomático de Pequim na América Latina, os brasileiros poderão obter concessões mais amplas de Trump do que se espera.