Foto ilustrativa (Alexsander Ferraz/AT) A Baixada Santista voltou a aprender, à força, uma lição antiga: quando chove forte, especialmente sob maré alta, não é apenas a água que ocupa ruas e casas — é a fatura de décadas de descuido com drenagem e macrodrenagem que chega. Em Santos, os alagamentos desta semana interditaram vias, danificaram pavimentos, desgastaram canais, invadiram comércios e residências. A rotina foi desmontada, o transporte público atrasou, serviços essenciais ficaram comprometidos. E cada um desses prejuízos é um lembrete de que infraestrutura hidrológica não é luxo nem obra invisível: é política pública básica para preservar vidas, patrimônio e atividade econômica. Clique aqui para seguir agora o canal de A Tribuna no WhatsApp! O fenômeno não é episódico. Eventos extremos são mais frequentes e intensos. O clima mudou; a cidade precisa mudar com ele. Planejar para a chuva “média” é condenar a população às exceções que viraram regra. Isso exige redes dimensionadas para picos, reservatórios de detenção, comportas, estações elevatórias, desassoreamento permanente, recuperação de várzeas e manguezais, ampliação de áreas permeáveis e, sobretudo, integração metropolitana. Nesse contexto, o Plano Regional de Macrodrenagem da Baixada Santista (PRMBS) é passo correto e inadiável: diagnóstico técnico único, diretrizes comuns e projetos para cada município. Mas plano sem cronograma, sem orçamento em execução e sem governança que cobre resultados vira letra morta. É preciso transformar o PRMBS em carteira de obras e ações com metas anuais, fonte de recursos definida, licenciamento ágil e transparência total. Prefeituras, Estado, comitês de bacia e concessionárias devem sentar à mesma mesa. A drenagem precisa sair do ciclo eleitoral e entrar no ciclo da manutenção. Há ainda um aspecto sanitário que costuma ser ignorado nessa questão. Alagamento é, também, contaminação. A lâmina d’água que avança sobre as ruas carrega óleo, metais, lixo, fezes de animais, resíduos industriais; arrasta tudo para galerias pluviais, sobrecarrega coletores, provoca extravazamentos e compromete o tratamento de esgoto. Depois, essa mistura chega a rios, canais e mar. Por conta dessas certezas, drenagem é política de saúde pública. Sem coleta seletiva eficiente, varrição, bocas de lobo desobstruídas e fiscalização sobre ligações irregulares, qualquer obra será subutilizada. A prioridade, então, é inequívoca: drenagem e macrodrenagem no topo da agenda dos nove municípios, com foco em adaptação climática. Investir em parques de infiltração, renaturalização de cursos d’água, contenção em morros e gestão por bacia; modernizar canais históricos; adotar sensores, radar de chuva, protocolos de emergência e comunicação clara com a população. São custos elevados mas, mais caro é repetir, ano após ano, a reconstrução do que a água levou — e normalizar prejuízos que não são “fatalidade”, mas consequência. A Baixada conhece suas mazelas e sabe por onde começar. Falta, agora, construir uma cultura de convivência inteligente com a água.