Direito Previdenciário

Sergio Pardal Freudenthal é advogado e professor universitário, especialista em Direito Previdenciário, atua há mais de três décadas em Sindicatos de Trabalhadores na Baixada Santista.

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Foi no Terreiro do Pai Zoeira

Durante a crise, Pai Zoeira aplicou muitos golpes, especialmente na clientela de classe média

O Pai Zoeira carregava sete guias com dificuldade. Nem tinha certeza de coisa nenhuma, mas mantinha o Terreiro famoso pelas grandes festas. No fundo, algumas vezes até achava que recebia santo, em outras fingia na maior caradura.

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Como não era reconhecido por nenhuma organização séria, inventava o Candomblunda ou a Umbandomblé, seita da profunda África inexistente, residência de Tarzan e Fantasma. Durante a crise, Pai Zoeira aplicou muitos golpes, especialmente na clientela de classe média. Aliado com banqueiros sem dinheiro e milicianos com muitas armas, cresceu seu patrimônio pessoal, às custas de ingênuos crentes.

Sem moral com qualquer orixá, Pai Zoeira passava a maior parte de suas festas recebendo dois exus (ou fingindo). Exus são mensageiros dos deuses, e o pai-de-santo sem-vergonha se apresentava conforme a ocasião exigia. Ou cavalgado pelo Malandro Zé Baiano, mais para ifá que para exu, era mais conselheiro do que levador de recados, ou pelo Exu Entrega-Tudo, cagueta, fofoqueiro, fazedor de cizânia. Como se, enquanto um defendia a soberania nacional, era o outro ungido pelo imperialismo representando a globalização. Em congeminências propícias, Pai Zoeira recebia o Erê Nem-Nem, trinta e tantos anos, ou o Preto Velho Dalmabranca, aconselhando o(a) consulente a ficar quietinho(a) pra não apanhar mais.

Agora, Pai Zoeira está arrancando seus poucos cabelos, a encrenca que arrumou é muito grave. Na péssima última sexta-

feira de fevereiro de 2019, na festa pras autoridades, recebeu um índio que há muito tempo se anunciava, mas nunca chegava, o Caboclo Pandemia. Já tinha bebido a mais da conta, mais de quatro horas de festas, com as lindas pombas giras atazanando a cabeça do Capitão-Geral da Milícia Nacional, beócio cheio de poderes e vazio de conhecimento e intenções. Foi aí que Pai Zoeira se exaltou; de um lado o Zé Baiano alertava: “não ofereça o que não tens”; e d’outro, o Exu Entrega-Tudo, rindo, atiçava: “o cara é um imbecil, ofereça qualquer coisa, que não seja seu”. E o Pai Zoeira conjuminava com seus pobres botões: “nada é meu”. E aí desceu o Caboclo Pandemia, apresentando um plano fenomenal para recuperar a economia do Terreiro. O patrimônio de Pai Zoeira só tinha crescido, o Terreiro carregava as dívidas. Como uma republiqueta de bananas, o ditador faturando e o povo morrendo de fome.

O Pandemia prometeu: “acabo com todas as dívidas em menos de um ano. Sem sobrar um credor que seja, nem herdeiros”. O resultado foi infernal, sem restar credores, doadores, crentes ou descrentes. E se instalou de tal forma, que não para de matar, até não sobrar para quem pagar qualquer coisa.

O pior é que o Caboclo também se comprometeu com o Capitão-Geral da Milícia Nacional, que pouco se ligava se a entidade sobrenatural não distinguia nada nem ninguém. O Pandemia não se retira e é um touro bravo, em cima de cada cidadão, pouco importando se é um crente ou não, credor ou doador, democrata ou fascista.

Pai Zoeira, que nunca teve controle de nada, não sabe o que fazer. Mais hora menos hora, vai ter que prestar contas.

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