Dad Squarisi

Dad Squarisi fez curso de letras na UnB. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. É editora de Opinião do Correio Braziliense e comentarista da TV Brasília.

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Dois bicudos não se beijam

A língua se parece com os falantes. Cheia de caprichos, tem preferências

Recado

“Nenhuma pergunta é indiscreta. Certas respostas é que são."
Oscar Wilde

Apareceu na telinha da tevê: “Equipe do presidente não gostou do TSE reabrir casos”. Espectadores atentos estranharam a passagem “do TSE”. Perguntaram à coluna: no caso, o casamento da preposição com o artigo está correto? Resposta: na norma culta, não.

Nós e a língua

A língua se parece com os falantes. Cheia de caprichos, tem preferências. Tem, também, amigos e inimigos. O sujeito serve de exemplo. Mandão, forçou o verbo a concordar com ele. Não satisfeito, cortou relações com a preposição. A maior inimiga: de. Diante da monossilábica criatura, fica uma lá e outro cá. É a tal história conhecida em Europa, França e Bahia: dois bicudos não se beijam.

Um lá, outro cá

O sujeito é para lá de elitista. Não se mistura com a preposição. Por isso, antes dele, a combinação da preposição com o artigo ou pronomes não tem vez: Equipe do governo não gostou de o TSE (sujeito) reabrir o caso. Apesar de o ministro (sujeito) negar, é certa a edição de medida provisória. Passou da hora de essa informação (sujeito) ser confirmada. A fim de ele (sujeito) continuar no páreo, arranjos foram improvisados.

Tira-teima 1

A incompatibilidade da preposição com o artigo fica clara com o pronome eu. Escrever “está na hora deu sair”? Nãooooooooo! É bom fazer as pazes com a língua: Está na hora de eu sair.

Tira-teima 2

O mesmo ocorre com o pronome ele. “Está na hora dele sair”? Xô! Xô! Xô! Melhor: Está na hora de ele sair.

Cadê prova?

A pandemia fez estragos. O pior: ceifou milhares de vidas. Em seguida, corrupção na área da saúde. A mais recente denúncia é fraude em contratos de compra de testes de covid-19. Sete estados e o Distrito Federal estão sendo investigados. Um governador achou as acusações frágeis. Disse: “Tem que provar”. Em seguida, corrigiu: “Tem de provar”. E daí?

Preocupação desnecessária. Ambas as construções merecem nota 10: Governadores têm que se preocupar com a Operação Falso Negativo. Governadores têm de se preocupar com a Operação Falso Negativo.

Siga o dinheiro

Gigantes globais boicotam anúncios em mídias sociais. Unilever, Coca-Cola & cia. endinheirada protestam contra conteúdos racistas e fake news veiculados no Facebook, Twitter, Instagram etc. e tal. A razão: não querem ter a marca associada a mensagens fraudulentas ou preconceituosas. As plataformas buscam saídas. Afinal, o bolso é a parte mais sensível do corpo. Boicote dóiiiiiiiiiiiii!

História

Boicote vem do nome de Charles Cunningham Boycott. Ele administrava propriedades de Charles Parmell. Em 1890, o latifundiário irlandês decidiu meter a mão no bolso dos inquilinos. Elevou o aluguel às alturas e encarregou Boycott de executar a ordem.

As vítimas reagiram: a população deixou de falar com o pau-mandado, os comerciantes pararam de vender pra ele, os carteiros se negavam a lhe entregar a correspondência, o padre lhe barrou o acesso à igreja. Resultado: Boycott bateu asas e sumiu. A única notícia que se tem dele é a herança — a palavra boicote.

Leitor pergunta

A coluna diz que a palavra correta para pessoas que ficam com tubos de respiradores atravessados na traqueia é “intubadas”. O dicionário Houaiss afirma que é “entubadas”. Intubar ou entubar? 
Toshio Shiokawa, Santos

Dicionários não se entendem. O Aurélio só admite intubar. Entubar para ele é “dar feição de tubo”. O Houaiss aceita entubar e intubar. Mas diz que “intubar é forma menos preferível”. Conclusão: brigar com o dicionário é falta de juízo. Escolha um ou outro.

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