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Quarta-feira

15 de Julho de 2020

Dad Squarisi

Dad Squarisi fez curso de letras na UnB. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. É editora de Opinião do Correio Braziliense e comentarista da TV Brasília.

Damares Alves roubou o show

Ministra atacou a ação de prefeitos que mandam prender gente em casa.“A polícia pode entrar nas casas sem mandato”, disse

Recado

“De onde menos se espera, dali mesmo é que não sai nada.”
Barão de Itararé

A expectativa era grande. Houve gente que perdeu o sono. Imaginava diálogos capazes de abalar os alicerces da República. O ministro Celso de Mello os fez esperar uma semana. Finalmente, na sexta-feira, oba! Sua Excelência liberou o vídeo da reunião ministerial citada por Sergio Moro.

Entre palavrões, ameaças e xingamentos, poucos escaparam. A língua foi a vítima mais vistosa. Damares Alves sobressaiu. Atacou a ação de prefeitos que mandam prender gente em casa. “A polícia pode entrar nas casas sem mandato”, disse, indignada. Uiiiiiiiiiiiiiiiiiiiii! Doeu. Ela trocou mandado por mandato:

Mandado vem de mando. Trata-se de ordem judicial: mandado de segurança, mandado de prisão, mandado de busca e apreensão.

Mandato é representação, delegação: O mandato de deputado é de quatro anos. Presidente, governadores, prefeitos têm mandato conquistado nas urnas. Fala-se em adiar as eleições, mas não em prorrogar mandatos.

A ministra daria o recado correto com esta mudança: A polícia pode entrar nas casas sem mandado.

Bolsonaro foi atrás

Depois de um carretel de palavrões, o presidente soltou esta: “Prefiro não ter informação do que ser desinformado”. Pisou a regência do verbo preferir. A gente prefere alguma coisa ou alguém a outra coisa ou a alguém: Prefiro cinema a teatro. Prefiro Machado de Assis a José de Alencar. Prefiro morar em Brasília a morar em Nova York. Prefiro não ter informação a ser desinformado.

Superdica

Não use preferir mais nem a pedido dos deuses do Olimpo. O mais sobra. Basta preferir.

Por falar em vídeo...

Vídeo tem vida dupla. Numa é substantivo: sala de vídeo, gravado em vídeo, vídeo do programa, vídeo da reunião.

Na outra, é elemento de composição. Pede hífen quando seguido de h e o. No mais, é colado como chiclete em cabelo crespo: video-homenagem, video-oferenda, videoconferência, videoexposição.

Direita e esquerda

“A imagem do Brasil no exterior piorou com a pandemia e a crise política”, disseram pra Bolsonaro. O presidente desdenhou: “A imprensa estrangeira é de esquerda”. Ops! Pintou a curiosidade. De onde vem essa tal de direita e esquerda?

Contrários

No caso, as duas palavras têm conotação política. Direita caracteriza posições ou partidos conservadores, contrários a reformas. Para eles, fica tudo como dantes no quartel de Abrantes. Esquerda pretensamente, joga no time contrário. É reformista, a favor de mudanças. Grita aos quatro ventos “pode vir quente que eu estou fervendo”.

Origem

A expressão nasceu na França. No parlamento, os representantes de direita sentavam-se à direita do presidente. Os da esquerda, à esquerda. A designação ganhou o mundo. Primeiro, transportou-se para a imprensa. Depois, caiu na boca de Europa, França e Bahia.

Solto ou preso?

Extrema direita ou extrema-direita? Depende. A tendência política é livre e solta. Sem hífen: É político de extrema direita, mas já militou na extrema esquerda.

O tracinho tem vez na linguagem futebolística: Uns têm talento pra jogar na extrema-direita; outros, na extrema-esquerda. 

Leitor pergunta

Escrevo “a responsabilidade do pedagogo com a sociedade” ou “a responsabilidade do pedagogo para com sociedade”?
Iara Araújo, Brasília

Menos é mais. Lembre-se, Iara, dessa regra de estilo para lá de bem-vinda em tempos de internet. No seu exemplo, a preposição para sobra. Xô! Melhor: a responsabilidade do pedagogo com a sociedade.

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