Dad Squarisi

Dad Squarisi fez curso de letras na UnB. Tem especialização em linguística e mestrado em teoria da literatura. É editora de Opinião do Correio Braziliense e comentarista da TV Brasília.

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Briga no andar de cima

A Lava-Jato ora recebe aplausos, ora chutes e pontapés. Trata-se de briga de cachorro grande

Recado

“Segundo as más línguas, o húngaro é a única língua que o diabo respeita.”
Chico Buarque

Quebra sigilo, não quebra sigilo. Ufa! A Lava-Jato ora recebe aplausos, ora chutes e pontapés. Trata-se de briga de cachorro grande. Enquanto a guerra prossegue, que tal uma curiosidade? Sigilo vem do latim sigillum. Quando nasceu, significava selo. Depois evoluiu. Tornou-se sinônimo de segredo.

Ops!

“Haja com consciência”, escreveu o jornal. João Bergomas leu. Duvidou dos próprios olhos. Leu de novo. Não havia dúvida. Repórteres confundiram as grafias. Aja, do verbo agir, e haja, do verbo haver, se pronunciam do mesmo jeitinho. Mas o significado não tem nada a ver um com o outro. Compare: É necessário que haja voluntários para testar a vacina. Ufa! Haja paciência! Aja de acordo com a lei para evitar a polícia. Aja com consciência.

Qual o sentido?

Escrever é verbo transitivo. Escrevemos para alguém. Queremos que o leitor entenda nosso recado sem duplos sentidos. Primeiro passo: dizer com clareza o que precisa ser dito. Um dos cuidados é com o verbo declarativo. Ele tem tanta importância que, em caso de troca, muda a informação. Compare:

Não sou sócia da corrupção, disse a primeira-dama.
Não sou sócia da corrupção, insistiu a primeira-dama.
Não sou sócia da corrupção, alertou a primeira-dama.
Não sou sócia da corrupção, ironizou a primeira-dama.
Não sou sócia da corrupção, protestou a primeira-dama.
Não sou sócia da corrupção, mentiu a primeira-dama.

A língua e o coração

“A primeira coisa que morre na pessoa é a língua e a última coisa que lhe acaba é o coração. Será talvez porque a língua é que viveu mais desunida e por isso mais solta. O coração morre com menos pressa, porque todo o sangue se une para sua defesa.” (padre Antônio Vieira)

Correios na fila

O Governo fala em privatizações. Várias estatais estão na fila. Entre elas, os Correios. Ao falar no assunto, pinta a dúvida. A palavra leva o verbo para o singular ou o plural? Correios é substantivo próprio escrito no plural. Joga no time de Palmeiras, Santos, Estados Unidos.

A concordância depende do artigo. Se o nome vem acompanhado do pequenino, o verbo concorda com ele. Sem o monossílabo, é a vez do singular: Os Correios serão privatizados. O Palmeiras ganhou o jogo. Santos fica no litoral paulista.

Esconde-esconde

O artigo adora brincar de esconde-esconde. Às vezes, sobretudo em títulos, siglas e textos publicitários, o danadinho não aparece. Olho vivo! É armadilha. Ele conta como se estivesse presente: (Os) Correios serão privatizados. (Os) EUA expulsam imigrantes. (O) Palmeiras joga domingo.

O porquê do z

Por que privatizar se escreve com z? Porque -isar não existe. O sufixo formador de verbos é -ar. Ele se cola ao radical: martelo, martelar; casa, casar; retrato, retratar.

Às vezes, o radical tem s. O -ar não tem preconceitos. Cola-se a ele: pesquisa (pesquisar), bis (bisar), análise (analisar), catálise (catalisar), liso (alisar), paralisia (paralisar), improviso (improvisar).

Privado não conta com o s onde o -ar possa se agarrar. Precisa de uma ponte. Construíram o IZ, que se mantém nos derivados: privado (privatizar, privatização, privatizado), ameno (amenizar, amenização), canal (canalizar, canalizado, canalizante), humano (humanizar, humanizado, desumanizar), capital (capitalizar, capitalização, capitalizado).

Leitor pergunta

Cara a cara ou cara à cara?
Sílvia Borges, Florianópolis (SC)

Guarde isto, Sílvia: em expressões com palavras repetidas, o grampinho não tem vez: cara a cara, gota, a gota, uma a uma, ponta a ponta, frente a frente.

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