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Quinta-feira

6 de Agosto de 2020

Cida Coelho

É fonoaudióloga formada pela PUCSP, especialista em Voz com larga experiência na preparação de repórteres e apresentadores de televisão. Atua como consultora em Comunicação Humana ministrando palestras e treinamentos individuais para profissionais liberais, empresários, políticos, atletas profissionais, executivos e equipes de liderança. É palestrante de Media Training para porta-vozes de empresas e atua como consultora da TV Tribuna, afiliada da Rede Globo em Santos, desde 1995. Acumulando os títulos de mestre e doutora, Cida também foi professora universitária durante 25 anos.

Quatro passos para falar melhor

Encarando a etapa de planejamento

De casa para o trabalho, do trabalho para a academia, da academia para a faculdade. Fazemos repetidamente, tantos caminhos diariamente, que não precisamos mais pensar neles. Eles estão automatizados e sequer reparamos mais no entorno deles. Mas, se você tivesse que ir a um destino diferente, confiaria nas suas vivências anteriores e não planejaria a rota? Não colocaria seu destino no Waze ou no Google Maps? Claro que sim!

Na nossa comunicação acontece uma coisa semelhante. Confiamos em nossa habilidade de falar, já que também essa capacidade se tornou automática ao longo do tempo, mas diante de uma situação mais especial, como uma apresentação de projeto, um discurso de formatura, uma fala antes de um brinde importante, a maioria de nós percebe que é preciso um planejamento. Curiosamente, essa é a etapa que as pessoas mais adiam. Mas por que adiar a fase mais importante de uma apresentação?

As razões para adiar coisas importantes são muitas. Os especialistas têm até um nome pra isso: Procrastinação. Os procrastinadores já foram considerados perfeccionistas que nunca estão satisfeitos com seus produtos. Hoje, a maioria dos pesquisadores tem reservas quanto a essa definição. O fato é que fugimos de tarefas complexas, como pesquisar e planejar o conteúdo de uma fala. Dá trabalho, demanda tempo e energia do nosso cérebro. E o que é pior: não dá satisfação imediata. Paralelamente, encontramos fontes de recompensa em tempo real sem sair do lugar: é o celular e toda a magia contida nele, são séries na TV, jogos, enfim, qualquer coisa costuma ser mais interessante do que se debruçar e preparar uma fala.

Para ajudar a nos concentrar no que realmente importa e ignorar os atrativos no entorno, Marcos Simioni cita uma habilidade essencial: A autorregulação, que é “a capacidade de monitorar e controlar nossos próprios pensamentos, alterando-os de acordo com as exigências da situação”.

A autorregulação é uma habilidade que se desenvolve já na infância e pode definir que tipo de adultos nós seremos. Existe um experimento emblemático na psicologia, chamado “Teste do Marshmallow” (vale a pena assistir). Refere-se a uma série de estudos de recompensa adiada, liderada pelo psicólogo Walter Mischel. O modelo do estudo é o seguinte. Uma criança é conduzida a uma sala vazia, apenas com uma mesa e uma cadeira. A frente dela, um pequeno marshmallow, que ela poderia comer imediatamente, mas se conseguisse esperar até o pesquisador voltar, ganharia mais um marshmallow, podendo então, comer dois. Estava em jogo, ali, a capacidade de abrir mão de uma recompensa agora em nome de uma recompensa em dobro, alguns minutos depois. Esse experimento foi amplamente replicado e as crianças participantes dos estudos iniciais foram acompanhadas por longo tempo. Os pesquisadores concluíram que as crianças que foram capazes de esperar até o pesquisador voltar, resistindo ao apelo imediato, apresentaram-se melhor adaptadas em todos os campos,  na vida adulta.

Portanto, se você quer falar bem, não acredite em milagres. Invista tempo e atenção no planejamento da sua aula, da sua apresentação, da produção do seu conteúdo. Essa é uma decisão essencial, e depende exclusivamente de você. Mas vou te dar um empurrãozinho e deixar aqui algumas reflexões que vão te ajudar a  iniciar sua tarefa de planejamento:

O público: Para quem eu vou falar? O que eles já sabem sobre esse assunto? Como posso demonstrar que trago algo interessante?

A finalidade: Por que vou fazer essa apresentação? Para trazer uma informação nova ou para aprofundar ou ampliar um determinado assunto? 

O conteúdo: Das informações que eu tenho, o que merece ser enfatizado para esse público em específico?  Como posso 

A forma: Qual a melhor maneira de tornar esse assunto mais compreensível para quem me ouve? Que recursos podem me ajudar nessa tarefa? Quanto tempo terei para essa apresentação? 

E lembre-se: Do cérebro à boca, o caminho das palavras é longo. Grandes fiascos começaram pela subvalorização da etapa de planejamento. Não arrisque. Planeje sua rota e pratique a sua fala!

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