Cida Coelho

É fonoaudióloga formada pela PUCSP, especialista em Voz com larga experiência na preparação de repórteres e apresentadores de televisão. Atua como consultora em Comunicação Humana ministrando palestras e treinamentos individuais para profissionais liberais, empresários, políticos, atletas profissionais, executivos e equipes de liderança. É palestrante de Media Training para porta-vozes de empresas e atua como consultora da TV Tribuna, afiliada da Rede Globo em Santos, desde 1995. Acumulando os títulos de mestre e doutora, Cida também foi professora universitária durante 25 anos.

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Os impactos da autoimagem na nossa comunicação

Podemos ajustar nossa imagem pessoal de modo que ela esteja em harmonia com o que somos e com o que pretendemos transmitir quando nos comunicamos

Você já teve a sensação de simpatizar ou antipatizar com alguém logo de cara?

A resposta positiva é mais comum do que imaginamos. Logo que iniciamos um processo comunicativo, mesmo antes das primeiras palavras, já temos uma “intuição” que nos diz se gostamos ou não daquela pessoa. É a chamada “Primeira Impressão”. Evidentemente, não devemos dar crédito absoluto a essa impressão, já que ela pode nos conduzir a estereótipos indesejáveis. Mas não dá pra negar que ela ocorre. Daniel Kahneman, em seu livro “Rápido e Devagar” explica em detalhes como e por que isso acontece. Ele divide as tarefas do nosso cérebro, didaticamente, entre dois sistemas: o Sistema 1,   responsável pelos julgamentos rápidos e intuitivos, e portanto pela nossa primeira impressão. E o Sistema 2, mais racional e custoso, responsável por nossos pensamentos mais reflexivos. 

De acordo com essa teoria, a sensação de simpatizar ou antipatizar com alguém é tarefa exclusiva do Sistema 1. E, se você pensa que é possível pular essa etapa, esqueça. É impossível fugir desse primeiro julgamento intuitivo e existe uma razão biológica pra isso. O Sistema 1 é moldado para fornecer avaliação continua sobre riscos à nossa sobrevivência. É como um radar ligado o tempo inteiro para detectar possíveis problemas. Ele se preocupa, por exemplo,  em verificar se estamos diante de uma ameaça ou um desafio, se devemos nos aproximar ou evitar algo ou alguém. Kahneman cita o psicólogo Alex Todorov como um dos grandes pesquisadores das raízes biológicas desses julgamentos rápidos, para os quais  o rosto tem uma função essencial. Todorov esclarece que o  sistema 1 leva em consideração dois aspectos essenciais: (1) o risco da  outra pessoa representar uma ameaça para nós e (2) o grau de  confiabilidade da outra pessoa. 

Isso está no nosso DNA, herdamos dos nossos antepassados, não conseguimos fugir dessa avaliação rápida e intuitiva. Mas podemos ajustar nossa imagem pessoal de modo que ela esteja em harmonia com o que somos e com o que pretendemos transmitir. Recentemente, conversei sobre esse assunto com a consultora de imagem Clarice Dewes, consultora de imagem pessoal e corporativa. Acompanhe os principais pontos:

Quando falamos em estilo pessoal estamos falando em moda?

Absolutamente, não. Moda é tendência, o costume de uma época, sempre em constante transformação; Estilo leva em consideração a própria pessoa, o que funciona para ela, relacionado a gostos pessoais e estilo de vida. 

O que transparecemos por fora, reflete o  interior?

Nem sempre. Expressamos muito por meio da roupa e, muitas vezes, refletimos nosso interior em nossas escolhas. Mas para isso é necessário autoconhecimento. Sem dúvida, uma comunicação efetiva e autêntica funciona quando mostramos quem realmente somos. Mas o contrário pode funcionar também. Quando estamos muito para baixo, por exemplo, a roupa pode ter um poder de nos levantar e melhorar nossa autoestima. 

Autenticidade, autoconfiança e credibilidade: predicados altamente desejáveis pra quem deseja ter uma boa comunicação. Como o consultor de imagem pode assessorar seus clientes nesse sentido?

Nosso trabalho começa pelo estudo das características pessoais do cliente, bem como dos seus desejos de imagem. Isso já impulsiona o autoconhecimento e facilita a sensação de autoconfiança. Ao descobrir o que realmente funciona para nós, conseguimos expressar nossa real essência, nos sentindo únicos e autênticos. 

É verdade que a ciência pode nos ajudar a construir uma imagem da forma como pretendemos?

- Sim, estudamos as  linhas, as formas, as cores e o que elas comunicam. E que com alguns artifícios e intervenções, podemos sim, conseguir um resultado de acordo com a mensagem que queremos passar. Por exemplo, o formato do nosso rosto diz muito sobre nós. E os elementos que inserimos, como armação ocular, brinco, colar, corte de cabelo, coloração ou penteados, podem reforçar ou amenizar esse mensagem, se este for nosso objetivo.

Estar feliz com a própria imagem envolve valores e esforço em direção a conceitos como autoperdao, autoaceitação, otimismo, gratidão e  sede por mudanças internas e externas. Voce concorda com essa afirmação? 

Sim, é muito importante aceitar quem somos. Até porque não existe nem perfeição nem uma medida determinada que diga o que é bonito ou feio, certo ou errado. Nós simplesmente somos e nossa beleza está aí. O que temos que fazer é entender quais são nossos pontos fortes (todos nós temos uma combinação de pontos fortes que nos torna único) e focar neles. O problema é que as pessoas tendem a olhar mais os seus pontos fracos, tentando mudar aquilo que elas não gostam, perdendo muito tempo nessa função e se frustrando. Quando a gente se conhece , descobrimos o que temos de melhor, e passamos a ser  gratos por isso, seguindo em frente cheio de amor próprio. 

O que define nossa escolha pela roupa do dia? O clima ou o humor?

O clima é importante, claro. E nossas escolhas tendem a refletir o que estamos sentindo no dia. Mas o que é muito importante também é levarmos em conta a adequação (ambiente) e com quem iremos nos comunicar (interagir naquele dia ou num compromisso). Portanto, não basta só fazer uma escolha, é importante ter noção de como seremos “lidos”. Cores dizem muito, bem como as formas, modelagens, tecidos... É importante levar em consideração quem somos (nossos gostos e preferências), o que queremos transmitir, com quem iremos interagir e os locais que iremos frequentar. 

A paleta de cores determina o impacto que geramos nos outros?

Sim. Vou dar alguns exemplos, que são rasos, mas já é bem possível ter uma ideia. Cores claras e mais suaves tendem a transmitir mais acessibilidade, por exemplo. É uma boa escolha no dia em que queremos estar mais comunicativos, conversar, ouvir os outros. Cores mais escuras, no entanto, podem gerar um distanciamento. Num dia talvez que você não queira falar muito, ou queira impor uma decisão sem muito debate ou participação de outras pessoas. Cores mais vivas, mais intensas, tendem a transmitir mais energia. Boa escolha para quando quisermos ser notados ou estar em evidência. Porém, é importante ressaltar que não podemos analisar as cores sozinhas. Modelagens, textura, tipo de tecido, também entram nessa leitura e devem ser considerados. 

E os sete estilos universais? Continuam valendo?

Os estilos são uma forma de nos orientarmos e entender o que comunicam aquele conjunto de elementos. Por exemplo, quando falamos em estilo “romântico”, podemos pensar em cores mais suaves, tecidos fluidos, babados, rodados, mangas bufantes... Esses elementos quando inseridos na nossa imagem podem comunicar romantismo, suavidade, feminilidade... Isso vale para os outros. Temos o estilo clássico, o criativo, o sexy, entre outros. No entanto, é completamente normal a gente querer estar um dia mais sexy, e num outro, mais clássica... Por isso, eu não acredito em classificar as pessoas em estilos, mas sim entender o que eles comunicam e fazer a escolha mais apropriada para nós dentro de um momento e de acordo com o queremos passar naquela ocasião. 

O que você pode nos dizer sobre o “poder dos acessórios? 

Em tempos de home office, é uma grande arma. Como disse antes, ele pode reforçar algumas características, como disfarçar ou suavizar. Eles têm o poder de mudar um visual sem precisar trocar de roupa. São ótimos investimentos. Óculos (poderosíssimos), brincos, colares, lenços... Fáceis de usar e ótimos para comunicar. 

A máxima “menos” é mais?

Depende. O que vale é nossa essência e o que realmente somos. Existem pessoas que adoram coisas chamativas, mistura de cores, acessórios grandes. Se elas tiverem que vestir algo minimalista e sem tantos detalhes,  deixarão se ser elas mesmas. Aí sim, gera um ruído de comunicação. Autenticidade e originalidade é o que mais faz sentido.

Como saber se minha escolha está adequada à mensagem que eu quero passar?

Autoconhecimento. Primeiro você precisa saber exatamente o que funciona para você em termos de modelagens, cores, acessórios. A primeira coisa é que nós devemos nos sentir bem. Depois disso, é entender o que aquela peça, combinada dentro de um visual, está comunicando. Use bom senso e intuição. Eles são ótimos aliados. Ao menor sinal de mal estar, desconfie. Algo, ali, pode não estar de acordo com o que você pretende passar. Coloque-se no lugar de quem vai interagir com você : qual a leitura que aquela pessoa fará de mim? - e mentalize os ambientes que você irá transitar. Sua escolha faz sentido para aquele local? Estarei confortável diante dos outros? Conseguirei seguir meus compromissos sem me arrepender da minha escolha?

Alguma dica pra melhorar nosso autoconhecimento?

Preste atenção naquela peça de roupa que você adora ou todos elogiam quando você veste? Ali pode ter ótimos sinais do que te valoriza. Pode ser a cor, a modelagem, a forma como você combina... O autoconhecimento vem da experiência e das sensações que experimentamos. O que nos faz nos sentir bem é um ótimo caminho. 

Encerro com a frase que a Clarice Dewes nos presenteou, ao final dessa entrevista:  “ A saída é para dentro”. Embora busquemos as diversas soluções olhando para fora, é apenas quando nos voltamos para dentro que as principais mudanças acontecem. Boa sorte!

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