EDIÇÃO DIGITAL

Terça-feira

22 de Outubro de 2019

Cida Coelho

É fonoaudióloga formada pela PUCSP, especialista em Voz com larga experiência na preparação de repórteres e apresentadores de televisão. Atua como consultora em Comunicação Humana ministrando palestras e treinamentos individuais para profissionais liberais, empresários, políticos, atletas profissionais, executivos e equipes de liderança. É palestrante de Media Training para porta-vozes de empresas e atua como consultora da TV Tribuna, afiliada da Rede Globo em Santos, desde 1995. Acumulando os títulos de mestre e doutora, Cida também foi professora universitária durante 25 anos.

O dia seguinte - O que lembramos depois de assistirmos a uma palestra

É importante compreender que a memória não funciona como um grande gravador, uma HD sem limites para arquivar todas as nossas experiências

O cérebro humano tem uma capacidade limitada para processar as informações que recebe. E nos dias atuais, as informações são tantas, e as maneiras que elas chegam até nós são tão diversas, que fica impossível registrar tudo. Então, quem decide o que fica na memória e o que vai pro “lixo”?

Em primeiro lugar, é importante compreender que a memória não funciona como um grande gravador, uma HD sem limites para arquivar todas as nossas experiências. Assim, nem tudo aquilo que a gente ouve, vê ou vivencia, ficará gravado.

Lembraremos daquilo que teve um significado importante para nós ou daquelas tarefas que mais repetimos.

Em segundo lugar, para uma informação ser armazenada e lembrada, ela tem que ter sido captada corretamente por nossos sentidos. Nossos processos de atenção e percepção devem estar funcionando a pleno vapor. Além disso, nosso cérebro tende a rejeitar o que é desnecessário, para deixar espaço para o que consideramos importante, e também para novos conhecimentos. Em suma, não cabe tudo no nosso cérebro. Lembramos de fragmentos, não do conteúdo todo.

Ocorre que, quando falamos, nós desejamos que nosso conteúdo seja não apenas compreendido, mas também absorvido e fixado na memória. E mais ainda: muitas vezes nós falamos esperando provocar uma mudança de comportamento em quem nos ouve.

Chamamos isso de capacidade de convencimento ou, simplesmente, persuasão. Acontece com todos nós, mas está no dia a dia dos vendedores, dos líderes e dos políticos, por exemplo. Eles esperam uma tomada de ação por parte de quem ouve, seja uma decisão de compra, seja o voto, mas é algo concreto. 

Agora ficou mais complicado! Além de guardar o conteúdo, esperamos que nossos ouvintes se engajem ao nosso conteúdo ao ponto de tomar decisões!?

Para entender porque os ouvintes se lembram mais de alguns discursos do que outros, pesquisadores da Universidade do Texas, nos Estados Unidos, conduziram um teste que envolveu 30 voluntários falantes nativos da língua inglesa e 30 voluntários não nativos.

Eles ouviram mais de 70 frases, algumas das quais foram emitidas de forma clara e bem articulada e outras, de forma menos cuidadosa, menos inteligível. As frases foram alternadamente distribuídas. Ao fim do estudo, os pesquisadores concluíram que ambos os grupos (nativos e não nativos) conseguiram lembrar melhor das frases que foram apresentadas de forma clara e bem articuladas. 

A pesquisa nos traz a comprovação de algo que sentimos intuitivamente e a explicação é simples: quando uma pessoa fala rápido demais ou com pouca clareza, precisamos prestar mais atenção para “decifrar” o que está sendo dito. Pra essa tarefa, o cérebro gasta energia e recursos mentais, e sobra menos espaço para a consolidação da memória. A gente compreende, mas não guarda.

Então, se queremos que, amanhã e depois de amanhã, nossos ouvintes se lembrem do que falamos hoje, melhor não dar trabalho para o cérebro deles. Melhor cuidar dos nossos discursos, que precisam ser articulados, claros e objetivos, para que sejam compreendidos facilmente. Assim, nossos ouvintes conseguirão, não só compreender com facilidade, mas também interpretar, memorizar e, quem sabe, tomar decisões práticas e se engajar.

Tudo sobre:
Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha editorial e ideológica do Grupo Tribuna.
As empresas que formam o Grupo Tribuna não se responsabilizam e nem podem ser responsabilizadas pelos artigos publicados neste espaço.