Cida Coelho

É fonoaudióloga formada pela PUCSP, especialista em Voz com larga experiência na preparação de repórteres e apresentadores de televisão. Atua como consultora em Comunicação Humana ministrando palestras e treinamentos individuais para profissionais liberais, empresários, políticos, atletas profissionais, executivos e equipes de liderança. É palestrante de Media Training para porta-vozes de empresas e atua como consultora da TV Tribuna, afiliada da Rede Globo em Santos, desde 1995. Acumulando os títulos de mestre e doutora, Cida também foi professora universitária durante 25 anos.

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Cuidado: os manipuladores de emoções podem estar por perto

Preste atenção: eles podem estar em casa, no trabalho e até no círculo de amigos

Ao perceber fragilidades do outro, ele utiliza de suas habilidades para subjugá-lo (Foto: Shutterstock)

Seu namorado pergunta: “Você vai à reunião com essa roupa?” Você responde: “Sim, por quê? Não estou bem?” Ele responde apenas um “Tá” e muda de assunto ou sai de fininho... Pronto, instalou insegurança em você, que provavelmente vestirá outra coisa. Também tem a mãe que pergunta à filha, quando a vê chegar feliz do cabeleireiro: “Você cortou seu cabelo de novo?”. A filha quer saber: “Por que, mãe? Não gostou?” Só que a mãe pega a chave do carro e sai apressada, dizendo: “Depois a gente conversa; agora estou atrasada” e não mais toca no assunto, nem para elogiá-la.

Você acabou de ler dois exemplos comuns de manipulação emocional. Manipulador é aquele que, ao perceber fragilidades do outro, utiliza de suas habilidades e potencialidades para (consciente ou inconscientemente) subjugá-lo às suas vontades e agendas secretas, de acordo com a coach e palestrante Lúcia Helena Cordeiro.

Existem, na visão de Lúcia, dois tipos de manipuladores: os que agem assim por desvio de comportamento, querendo acelerar seus objetivos particulares (comum nos ambientes familiares e empresariais); e os por desvio de caráter, atraindo semelhantes ou ingênuos para atuarem em seus propósitos escusos (comum nos ambientes da política, incluem os fraudadores de licitação, de eleição etc.). 

Nos ambientes organizacionais, esses criam relações insanas, tóxicas, não saudáveis. Como identificá-los? Lúcia, que acaba de lançar o livro Faça Tudo De/Com Propósito, recomenda observar comportamentos excessivos em profissionais com quem trabalha. Tais como:

• Procuram conhecer demais sobre você. Afirmando que é para melhor ajudá-lo, querem identificar seus pontos fortes e as oportunidades de melhoria. Mas, lá no fundo, buscam conhecer seus pontos fracos, vulneráveis, para utilizá-los na empresa em situações que lhes favoreçam. 

• Sabem que uma das maiores carências humanas é “não ser ouvido”. Ouvem empaticamente, visando criar vínculo de codependência, para depois cobrar algo em troca. Costumam se esconder atrás da máscara de amigo para despertar confiança e sentimento de culpa no outro. 

• Irritam-se facilmente, provocando rivalidades internas, quando não atendidas em seus interesses escusos. Têm dificuldade de ouvir um não.

• Ficam com as antenas ligadas, procuram estar por dentro de tudo, utilizando as informações para exercer poder sobre o outro. Com elas, criam situações, inverdades, astutas maquinações e conseguem convencer o outro a servir a seus próprios interesses. 

• Insistem em ajudar, sem que sejam solicitados, mesmo fora do horário normal de trabalho. Sendo excessivamente bonzinhos, podem exigir o mesmo de sua vítima, quando convier. Caso não consigam reciprocidade para um objetivo não muito legal, tentarão fazê-lo se sentir culpado. 

Conforme as manipulações mais comuns no ambiente de trabalho, Lúcia recomenda olho vivo com seis tipos de profissionais:

• Os aduladores, bajuladores diários, que dizem: “Só você consegue elaborar um relatório tão preciso” ou “Se não fosse você...”. Eles podem estar insinuando que sempre caberá a você essa tarefa. 

• Aqueles que não assumem responsabilidade pelos resultados. Sempre buscarão um culpado e, geralmente, o mais vulnerável.

• Chefes que procuram captar suas melhores intenções, ideias, soluções para depois venderem aos superiores ou clientes, como se fossem deles.

• Intimidadores que fogem da raia. É o caso daquele que não admite atrasos. Porém, para manter sua boa imagem, alega que o superior dele mandou demitir quem cometesse essa falha. Ou, então, não quer aumentar salários mentindo que tentou com o RH, sem sucesso.

• Donos de atitudes extremamente paternalistas, para que a vítima sempre seja grata a ele e nunca possa negar nada.

• Chefes que mantêm colaboradores sob o jugo do medo de perder o emprego, o respeito ou a possibilidade de promoção, constituem ameaças veladas ou até mesmo assédios.

Para não cair nas armadilhas, Lúcia orienta manter a distância necessária para que o manipulador não consiga ser invasivo, assim como evitar se expor muito: “Lembre-se de que você está sendo avaliado no seu emprego pelo nível de entrega de resultados e comportamento equilibrado. Por isso, posicione-se com elegância e competência e diga não respeitosamente, argumentando o motivo, para não ficar vulnerável”. 

A manipulação emocional também pode acontecer nas relações de amizade, de amor e no âmbito familiar. Quando alguém deseja dominar as emoções do outro, para que satisfaça os seus desejos, não deixa de ser uma agressão, mesmo existindo laços afetivos ou sexuais. 

Por ser sutil, nem sempre você se dá conta de que está sendo manipulado. “Nada é ostensivo, ficando mais no plano dos olhares, pequenos toques, mensagens subentendidas, zombarias, mas que vão desestabilizando nosso emocional e colocando-o à mercê do manipulador”, detalha Carmen Villaça de Cerqueira Cesar, psicóloga com mais de 20 anos de atendimento clínico a adolescentes, adultos, casais e famílias. 

Via de regra, embora aparente ser muito seguro, aquele que recorre à chantagem emocional é inseguro e fraco. “Ele percebe a necessidade da outra pessoa e dá isso a ela, para acostumá-la a esse tratamento tão atencioso. Ganha admiração e afeto, que vai transformando em poder sobre as emoções dela. Ele não assume a responsabilidade por seus atos e ainda faz o outro se sentir culpado, duvidar de si mesmo. Por exemplo, resmunga: “Sou agressivo porque você me provoca” ou “Estou sendo infiel, porque você não me dá atenção, só trabalha”. 

No ambiente familiar, Carmen lembra o que não dizer:

• No casamento: “Se fizer isso outra vez, acabou tudo!” ou “Se você for embora desta casa, nunca mais vai ver seus filhos!” ou “Se você faz isso é porque não gosta de mim”.

• Entre parentes: “Eu pago tudo para você, sustento, me mato de trabalhar e você faz isso comigo!?” ou “Depois de tudo o que eu fiz por você, é assim que me retribui?”.

• Nas promessas e cobranças dos pais: “Filho, se você passar de ano, vou te dar uma bicicleta” ou “Se você comer tudinho, compro chocolate pra você” ou “Se você sair com seus amigos, vai me deixar sozinho e triste”.

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