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Sábado

24 de Agosto de 2019

Cida Coelho

É fonoaudióloga formada pela PUCSP, especialista em Voz com larga experiência na preparação de repórteres e apresentadores de televisão. Atua como consultora em Comunicação Humana ministrando palestras e treinamentos individuais para profissionais liberais, empresários, políticos, atletas profissionais, executivos e equipes de liderança. É palestrante de Media Training para porta-vozes de empresas e atua como consultora da TV Tribuna, afiliada da Rede Globo em Santos, desde 1995. Acumulando os títulos de mestre e doutora, Cida também foi professora universitária durante 25 anos.

Câmara quase 'pré-histórica': 'Manterrupting' e 'Mansplaining' onde todos deveriam ter a mesma voz

O que vimos na audiência presidida pela deputada federal Marcivânia foi um show de desrespeitos dos mais diversos, mas agora sabemos que alguns deles têm nome

Semana passada assistimos a um dos piores exemplos de comunicação humana. Dedos em riste, vozes aos berros, todos falando ao mesmo tempo. Algo muito parecido com o que vemos em jogos de futebol na várzea, em grupos de adolescentes na escola e até mesmo entre grupos rivais de primatas, na selva. O problema é que isso aconteceu na Câmara dos Deputados, em Brasília, jogando mais uma pá de cal na já enfraquecida confiança dos brasileiros em seus políticos. 

Essa não foi a primeira, nem será a última vez, que nossos representantes patinam em seu ofício de encontrar soluções inovadoras e eficazes para o Brasil. No entanto, esse episódio teve um elemento a mais, que merece nossa atenção. Quem presidia a mesa naquela audiência era a deputada Marcivânia, do PC do B, presidente da Comissão de Trabalho, administração e serviços públicos.

No meio das vozes predominantemente masculinas, a voz de Marcivânia tentava, em vão, buscar a ordem para que a sessão prosseguisse. O microfone distorcia ainda mais sua voz, já  esganiçada devido ao esforço em ser ouvida, num ambiente onde todos queriam falar, mas ninguém queria ouvir.

Após alguns minutos de comunicação caótica, parte dos presentes começam a pedir pra sessão ser encerrada, atribuindo à presidente da mesa a culpa pela desordem. “Ela não tem pulso”, “não tem pulso, pede pra sair!”. Fico imaginando o que seria “ter pulso” diante daquele cenário quase pré-histórico.

Esse episódio nos leva diretamente a algumas expressões com as quais talvez você ainda não esteja familiarizado:  “manterrupting” e “mansplaining”. Anote aí porque essas são apenas duas entre as várias expressões que se referem a desvantagem feminina em mais um campo: o da comunicação.

O termo “manterrupting” diz respeito a interrupção da fala de uma mulher por um homem, com intenção de prejudicar sua linha de raciocínio e/ou desqualifica-la. Já o termo “mansplaining” é utilizado para se referir a uma situação onde um homem tenta “explicar de forma didática” um conceito que vinha sendo explicado por ela, (e na maioria das vezes, sobre o qual ela tem mais conhecimento), na tentativa de desmerecer o conhecimento ou a capacidade da mulher. 

O que vimos naquela sessão da Câmara foi um show de desrespeitos dos mais diversos, mas agora sabemos que alguns deles têm nome. Nomes que infelizmente ouviremos mais vezes. Quantas mulheres ainda terão de ser interrompidas, desrespeitadas, constrangidas, até que consigamos chegar mais próximos da harmonia em ambientes de trabalho?

Me pergunto onde estamos errando na educação de nossos meninos e meninas... Me pergunto como, apesar de termos avançado em tantos aspectos, as relações entre homens e mulheres ainda podem repetir erros de séculos passados! Sonho com o dia em que nossas meninas consigam seguir suas vocações e desejos profissionais e que nossos meninos não se sintam ameaçados por isso. Sonho com o dia em que homens e mulheres se vejam como seres humanos com qualidades, defeitos, sonhos e com muito a aprender uns com os outros.

Confira o tumulto durante a audiência pública - a partir de 7h17min30

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