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Domingo

12 de Julho de 2020

Caio França

Tem 31 anos e foi reeleito deputado estadual com 162.166 votos. É advogado formado pela Universidade Católica de Santos. Foi o vereador mais votado da história de São Vicente. É presidente da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo e coordenador da Frente Parlamentar de Apoio a Baixada Santista e Vale do Ribeira.

Os efeitos colaterais da Covid-19

São tempos amargos que devem deixar marcas

A pandemia do novo coronavírus, aquele inimigo oculto que já nem parece tão novo assim, afinal ele está presente no noticiário do café da manhã, do lanche da tarde e na hora do jantar, todos os dias, tem evidenciado as fragilidades do nosso país e, ao mesmo tempo, possibilitado experimentos, coletivos e individuais, inéditos.

A imersão no tema e o domínio das informações durante as últimas duas semanas em isolamento social nos levam a uma falsa sensação de que já somos íntimos e que dominamos absolutamente todas as informações necessárias para enfrentar a doença, incluindo as medidas preventivas, e que dessa forma já podemos voltar às nossas atividades diárias, resgatar nossas vidas e colocar os projetos em ação.

No entanto, a equação não é tão simples quanto parece. Estamos diante de um vírus que tem tirado, literalmente, o sono de cientistas e pesquisadores. A Covid-19 assusta porque em cada organismo reage de uma forma diferente. Em alguns casos, passa de maneira imperceptível e assintomática e, em outros, leva à morte. 

Diante disso, segunda-feira (6), o Estado de São Paulo anunciou a prorrogação da quarentena até o dia 22 de abril. Essa notícia abalou profundamente os profissionais liberais e autônomos, setor de comércio e serviços e os pequenos e médios empresários que dependem do exercício de suas atividades, que precisam que os seus estabelecimentos voltem a funcionar para honrar o salário dos funcionários, evitar a demissão em massa, cumprir com suas obrigações e dívidas e evitar a falência.

Não obstante, o cenário é mais desolador para os que vivem em situação de extrema vulnerabilidade social, em favelas e cortiços, que estão desempregados e que atuam na informalidade. É lamentável que no Brasil as coisas sejam tão burocráticas e que, diante de um cenário crítico, somente segunda-feira, ao término da primeira quarentena, o Governo Federal tenha liberado o acesso ao cadastro de auxílio emergencial denominado “Coronavoucher”.

O auxílio vai conceder R$ 600 por três meses aos trabalhadores informais, microempreendedores individuais (MEI), autônomos e desempregados que não estejam recebendo seguro-desemprego e pensões previdenciárias. Nas situações em que as mulheres sejam as únicas responsáveis pela casa, o valor sobe para R$ 1.200.

O crédito acontecerá em até dois dias úteis para os registrados no CadÚnico que não recebem Bolsa-Família e têm conta no Banco do Brasil ou na Caixa Econômica Federal. Já para aqueles que realizarão o cadastro pelo aplicativo ou pelo site, o valor será creditado em até três dias úteis da data de recebimento pela caixa da validação da Dataprev e, por último, o beneficiários do Programa Bolsa-Família terão os valores creditados de acordo com o benefício regular de 16 a 30 de abril (neste caso, será creditado o benefício de maior valor).

Nesta tarefa de somar esforços e tentar vencer a batalha da fome e da miséria, aparece a sociedade brasileira por meio dos seus grandes exemplos de solidariedade e compaixão, mobilizada pelo terceiro setor ou por iniciativas isoladas de pessoas físicas e jurídicas no sentido de levantar recursos financeiros e promover doações de cestas básicas e materiais de higiene para distribuição em comunidades carentes.

Nessa crise sem precedentes, temos acompanhado o esforço de grandes empresas em modificar o modelo de negócio para atender as demandas da Covid-19 seja por meio da produção de álcool gel ou de máscaras ou respiradores. Também acompanhamos a sinalização por parte dos nossos astros do esporte e do cinema, que podem fazer a diferença numa situação como esta. Mas, é fundamental que todos, famosos ou anônimos, possamos ampliar e fortalecer ainda mais essa corrente.

Se desafios são oportunidades, temos que nos esforçar para enxergar o que estamos conseguimos extrair de toda essa experiência que se impôs repentinamente em nossas vidas, sem pedir licença para entrar. Em virtude da quarentena para a contenção do coronavírus, houve uma redução drástica na circulação de veículos, principal fonte de emissão de poluentes em São Paulo.

De acordo com boletim da Cetesb, na comparação de dados atmosféricos entre as semanas do dia 15 a 21/03 e do dia 22 a 28/03, o resultado foi a rápida diminuição da poluição atmosférica da cidade, com queda de 50% na concentração de monóxido de carbono.

Esses indicadores serão objeto de estudo da equipe do Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da Universidade de São Paulo (IAG-USP). A finalidade é obter análises mais robustas dos dados e monitorar por meio de medições outras fontes ofuscadas pela poluição veicular e quantificá-las. Algo considerado impossível numa situação normal, o experimento só está sendo viabilizado em virtude da pandemia instalada.

Medida semelhante também está sendo adotada pelas secretarias municipais de Meio Ambiente das cidades litorâneas, no sentido de realizar uma pesquisa para entender a origem e a proporção dos resíduos que chegam às praias, já que neste período de quarentena está proibido o acesso aos banhistas em alguns municípios.

São tempos amargos que devem deixar marcas. Mas, na vida, temos sempre a opção de pactuar com o negativo ou tentar driblar a dor com o amor, com o otimismo, solidariedade e fé em dias melhores. Quando retomarmos as atividades da vida diária, que a privação da liberdade nos possibilite refletir e repensar também sobre os nossos hábitos diários, valorizando os pequenos gestos e as atitudes e, acima de tudo, sobre o nosso papel enquanto cidadão do mundo. Em breve, estaremos juntos novamente!

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