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O centenário de Paulo Freire e o seu legado para o mundo
Professores, estudantes, pais e famílias inteiras precisaram se adaptar rapidamente ao ensino online e este formato já
Por: Caio França  -  21/04/21  -  07:11
  Foto: Imagem Ilustrativa/Pixabay

Muitas obras, pensamentos e teorias não envelhecem com a passagem do tempo. Ao contrário, a cada leitura e releitura temos a sensação do texto estar mais atual do que nunca. Assim acontece com os escritores imortais como Paulo Freire. Neste ano em que comemoramos o seu centenário (1921-2021) em meio à uma crise socioeconômica dimensionada pela pandemia, de escancarada desigualdade social, de corte de investimentos na educação, na pesquisa e na ciência, de polarização política, retrocesso na área ambiental e em diversos outros setores e áreas do conhecimento humano, o patrono da educação brasileira se faz mais presente do que nunca.


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Por essa presença marcante e necessária, quis trazer no artigo de hoje uma reflexão sobre o legado de Paulo Freire e a sua revolucionária pedagogia libertadora, especialmente em razão da transformação digital acelerada pela pandemia, que transcende o ensino e o uso exclusivo de ferramentas tecnológicas, que explora a criatividade e o talento das pessoas, com novas formas de pensar e agir a partir da adoção de estratégias colaborativas.


Professores, estudantes, pais e famílias inteiras precisaram se adaptar rapidamente ao ensino online e este formato já se estende por mais de um ano. Especialistas alertam: é um caminho sem volta. O mundo pós-pandemia promete ser um divisor de águas no segmento da Educação, em todos os seus níveis, da Educação Básica ao Ensino Superior.


Uma transição forçada, longe de ser considerada ideal, mas necessária para a continuidade do ensino-aprendizagem e da interação remota, que nos impõe uma nova perspectiva a partir da adoção de novas ferramentas de ensino, que desafiam o professor a quebrar paradigmas quanto às suas metodologias e práticas pedagógicas conservadoras, proporcionando uma verdadeira ruptura com o modelo convencional.


Paulo Freire sempre combateu o método dominante, vertical, no qual o professor tem o domínio do conhecimento e o aluno figura na posição de receptor da mensagem, de maneira passiva, cujo formato não promove interação. Essa dominação, ainda que realizada de forma sutil, o educador denominou de “educação bancária”.


Em sua obra “Pedagogia do Oprimido”, a terceira mais citada em trabalhos de Ciências Humanas no mundo, ele promove uma reflexão sobre como os processos de dominação e opressão se perpetuam ao longo da história, em especial no ensino público, por meio da pedagogia e metodologia de ensino desenvolvida nas escolas a serviço da manutenção desse círculo vicioso que só faz reforçar as diferenças de classe e renda.


O educador que sempre defendeu que a inovação advém justamente da dialogicidade, do confronto de ideias, da diversidade cultural, da troca de conhecimentos e saberes, hoje estaria preocupado em como promover uma inclusão digital de qualidade que contemple a todos de forma permanente, ilimitada e democrática, de maneira a reduzir a desigualdade tecnológica.


Se o ensino híbrido já é realidade, o governo federal, junto ao Ministério das Comunicações, que tem como objetivo fomentar e difundir o uso e o fornecimento de bens e serviços de tecnologias de informação e comunicação, deve acelerar o processo de expansão de conexões de banda larga, de pontos de acesso coletivos no país e investir na capacidade da infraestrutura de telecomunicações, inclusive por meio de parcerias público-privada.


Fomentar políticas que estimulem a construção de plataformas educacionais interativas e colaborativas, a aprendizagem digital prática, que permita expandir a temática de software livre, discutir e propor ações relativas ao uso seguro, consciente e responsável da internet como ferramenta para o exercício da cidadania, a promoção da cultura e o desenvolvimento tecnológico, conforme previsto no artigo 26 do Marco Civil da Internet, são ações necessárias que devem estar no radar do poder público, já passam necessariamente pela revisão e evolução dos currículos escolares.


Dessa forma, emancipar para a liberdade é oferecer condições iguais de desenvolvimento para todos.


Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha editorial e ideológica do Grupo Tribuna. As empresas que formam o Grupo Tribuna não se responsabilizam e nem podem ser responsabilizadas pelos artigos publicados neste espaço.