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Sábado

11 de Julho de 2020

Arminda Augusto

É jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 24 anos e há cinco está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos

Para quando a pandemia acabar

Um exercício de como poderemos estar pós-coronavírus

Santos, 18 de maio de 2020.

Querido diário,

Escrevo depois de muito tempo. Na verdade, não sabia muito o que dizer durante esse período de pandemia. Estávamos todos com  medo, inseguros, acompanhando dia a dia o desenrolar das notícias, a ascensão dos números, os casos suspeitos, os óbitos....

Tempos difíceis, caro diário. Acho que nunca vivemos coisa igual. No início da pandemia, lá na China, imaginávamos que ficaria restrita ao continente asiático. Erramos. De lá foi pra Europa, da Europa para os Estados Unidos e depois bateu forte aqui no Brasil. No início de março quase todos os governadores, prefeitos e o presidente já recomendavam ficar em casa. Houve um movimento para flexibilizar as regras, com a alegação de que não era preciso tanto rigor com a quarentena. Queria eu! O tempo foi mostrando que a melhor campanha foi mesmo a #fiqueemcasa.

Diário, estamos em vias de voltar à vida normal. O pico dos casos parece já ter passado e, agora, é cuidar dos que ainda estão no hospital ou monitorados em casa. Governadores e prefeitos ensaiam relaxar algumas restrições, setor por setor: dos menos movimentados para os que mais aglomeram pessoas.

Os estragos na economia foram, sim, bastante grandes. União, estados e municípios fizeram várias concessões – menos do que esperávamos, claro: criaram linhas de crédito com juros baixos, isentaram empresas de cobrança de tarifas, prorrogaram dívidas, estenderam prazos, concederam ajuda de custo aos desempregados e, enfim, chegamos até aqui. Não sei como será o segundo semestre, mas algumas lições tiramos desse capítulo da nossa história.

A primeira delas: a pressão gigantesca da sociedade e da imprensa fez com que o Congresso aprovasse uma medida emergencial de geração interna de caixa. Em outras palavras, de forma inédita – mas não sem muita confusão e até ameaças políticas e partidárias – os nossos representantes nas assembleias estaduais e em Brasília reduziram seus salários e demais verbas de gabinete em 50% por um ano. Com esse dinheiro, os municípios conseguiram construir e equipar muito mais leitos para acolher os doentes. E o que sobrar continuará fomentando as linhas de crédito para pequenas e médias empresas retomarem suas atividades. Estuda-se que seja a fundo perdido.

Um outro fato inédito aconteceu, querido diário. Os R$ 2 bilhões que estavam reservados para o fundo eleitoral sofreram um corte de 80%, dinheiro que também foi destinado às famílias que, nesse período, não puderam trabalhar. Não sei se contemplou todas elas, mas o estrago seria muito maior sem esse dinheiro. Isso é certo.

Os que quiserem se eleger este ano terão que ser muito mais criativos do que nunca. Aliás, nem sei se vai ter eleição, porque os prazos do calendário eleitoral foram dilatados e nem as convenções partidárias estão organizadas. A conferir...

Diário, em alguns municípios vai acontecer uma coisa estranha: o aumento da população de uma hora pra outra. E sabe por quê? Porque alguns têm uma periferia tão grande e numerosa, que ninguém sequer sabe quantas pessoas moram ali. Infelizmente, o coronavírus atingiu também esses aglomerados urbanos. As pessoas chegavam aos postos de saúde e diziam: moro no bairro X, no bairro Y, lugares que estavam fora da geografia e da nomenclatura oficial. Só que para receber mais recursos dos governos, os municípios tinham que apresentar o censo dessas populações. E quem disse que as prefeituras sabiam ao certo quantos moravam ali? Tiveram que correr pra atualizar os dados.

Diário, a sociedade também viu nascer um espírito de coletividade nunca visto antes. A falta de leitos em hospitais públicos e particulares levou pessoas de todas as camadas sociais a ficar lado a lado no mesmo atendimento, em hospitais de campanha espalhados por todos os cantos. Quase não conseguíamos diferenciar quem tinha e quem não tinha plano de saúde. Todos tinham o mesmo propósito: ficar curados, ver seus familiares e amigos curados.

Aqui no Litoral, as praias estão vazias desde março. Diminuiu o lixo trazido pela maré, o lixo deixado na areia, o lixo jogado fora das lixeiras. E mais: quem ousava caminhar pelo calçadão e jogar um papel sequer no chão era imediatamente advertido por quem passava. Uma vergonha sem tamanho.

Sem circulação de carros, o ar está mais leve. Com a chegada do inverno logo, logo, talvez tenhamos menos casos de bronquite e problemas relacionados à poluição do ar.

Nos ambientes corporativos, a história do home office funcionou. Muitas empresas também tiveram que correr pra garantir uma presença digital. Era questão de sobrevivência.

Não sei como será o segundo semestre, mas algumas lições tiramos desse capítulo da nossa história (Foto: Alexsander Ferraz/AT)

E nos lares, alguns capítulos curiosos também pudemos observar. O primeiro: todos os dias, pilhas e pilhas de cacarecos nas calçadas, para a coleta do lixo limpo. Muitos aproveitaram o tempo em casa pra descartar aquilo que já não servia mais. Uma limpeza de objetos inservíveis. Energia mais leve, renovada. Imagino que essas tarefas domésticas devam ter sido feitas em família, com todos fazendo aquilo que o dia a dia corrido quase não permite: conversar.

Na Ciência, você acredita que estão vindo de uma universidade federal as primeiras evidências de que a descoberta de uma vacina pode estar próxima? Sim, são nossos cientistas mostrando seu valor pro Brasil e pro mundo!

Querido diário, o fim da pandemia nos traz uma alegria sem fim. Todos ávidos por voltar a caminhar na praia, tomar um café no shopping, encontrar os amigos, abraçar os familiares. O desemprego aumentou, é fato, e os governos terão que criar muito mais mecanismos para reestimular a economia.

Ainda é cedo para contabilizar todos os estragos porque a normalidade plena ainda não aconteceu. Mas espero, sinceramente, que possamos colocar na ordem do dia todo o aprendizado e as boas práticas que surgiram, e que há tanto tempo o nosso Brasil precisava.

O foco foi garantir a vida nesse período, e saímos dele com uma certeza: as divergências sempre vão existir, mas elas não podem afastar de nós a civilidade, o respeito e o equilíbrio. É desse conjunto de coisas que poderá emergir um país melhor. Um país mais igual.

Até amanhã, diário.

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