EDIÇÃO DIGITAL

Terça-feira

14 de Julho de 2020

Arminda Augusto

É jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 24 anos e há cinco está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos

Normose

Se nada for feito, tragédias como a desta terça-feira podem ser corriqueiras

Não é bem essa a palavra que eu procurava, mas ela surgiu de uma conversa de fim de noite. Uma conversa pós-tragédia que matou quase duas dezenas de pessoas e deixou outras tantas desabrigadas. Eu procurava a definição para o medo de um sentimento, um sentimento que surgiu após uma das dezenas de entrevistas que todos fizeram nesse que foi um dos dias mais tensos dos últimos anos.

No final da entrevista feita com o Fábio Feldmann, um dos maiores especialistas em mudanças climáticas do País, ele disse, textualmente: "Corremos o risco de banalizar a tragédia e esses eventos despertarem cada vez menos atenção da sociedade, a não ser a das pessoas próximas das vítimas diretas".

Curta. Objetiva. Profunda. 

A frase é o ponto final de uma análise que transcende as questões climáticas, antrópicas, de políticas públicas, de mudanças culturais diante da natureza. É como se essa frase previsse o futuro a partir do passado, definisse o comportamento humano ao longo dos séculos. E é daí que vem o medo de que ela se torne fato.

Feldmann falava especificamente sobre a postura que se deve ter - sociedade e governos - diante das mudanças climáticas que o mundo vive, e da necessidade de se adotarem medidas urgentes para equacionar a vida na grande urbe em que todos vivemos. Mas sem querer, ele puxou o fio de uma meada.

Um dia não foi normal vermos pessoas dormindo nas ruas.

Um dia não foi normal vermos jovens morrendo em troca de tiros entre bandidos e polícia.

Um dia não foi normal que crianças fossem usadas para assaltar, traficar e matar.

Equipes da Defesa Civil de São Vicente e dos Bombeiros buscam por casal desaparecido (Foto: Vanessa Rodrigues/AT)

De tanto que se incorporaram ao noticiário cotidiano, fatos assim já não impressionam tanto quanto no início. Passamos por moradores de rua e é como se essa fosse a rotina comum de uma cidade grande: uns dormem na cama quente e confortável, outros debaixo das marquises ou sob carrinhos de reciclagem cobertos com lonas. Fazer o quê? É assim que é.

Só por esse razão -  o medo de vermos transformarem-se em fatos banais mortes e soterramentos de pessoas - já valeria uma mudança imediata dos rumos deste planeta e de quem vive sobre ele: governos e sociedade.

O homem chamado Antônio empurrando um carrinho de pedreiro, carregando o que lhe sobrou do fim de sua casa própria no Morro do Tetéu, ainda desperta pena, muita angústia, revolta e indignação. Não é uma cena comum. Mas e se amanhã aparecerem outros Antônios empurrando carrinhos? Algumas Marias que perderam o filho soterrado pela lama? E depois de amanhã também, e daqui três dias novamente, e daqui um mês de novo e de novo?

Quanta indignação, revolta e angústia somos capazes de sentir antes que cenas como essa se tornem fato corriqueiro, assim como o é vermos pessoas dormindo nas ruas, crianças fazendo malabares no semáforo, traficantes cooptando menores para a dinâmica empresarial da droga?

Está posto o desafio que a aba racional e humanística ainda nos reserva: a consciência de que as soluções precisam surgir de imediato. E elas não vão partir exclusivamente do poder público. A ele cabe a força-tarefa de criar políticas e ações governamentais e de estado que se não evitam as tragédias, ao menos atenuam suas consequências. E aí poderíamos destacar algumas dezenas delas, de A a Z.

À sociedade cabe entender que posturas individuais são parte da solução. E elas incluem tudo de menos e tudo de mais. Menos consumo, mais consciência; menos individualismos, mais movimentos em prol do coletivo.

A partir do dia de ontem, não faltarão especialistas para diagnósticos, análises e interfaces técnicas que situações assim demandam. Mas para mim, todas elas confluem na necessidade de jamais permitirmos que a normose se instale.

Tudo sobre:
 
Este artigo é de responsabilidade do autor e não reflete necessariamente a linha editorial e ideológica do Grupo Tribuna.
As empresas que formam o Grupo Tribuna não se responsabilizam e nem podem ser responsabilizadas pelos artigos publicados neste espaço.