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Quarta-feira

15 de Julho de 2020

Arminda Augusto

É jornalista formada pela UniSantos, trabalha em A Tribuna há 24 anos e há cinco está como editora-chefe. Como repórter, cobria os setores de Educação e Meio Ambiente. Foi também professora universitária por dois anos

'Acho que o mundo vai se repovoar devagar. Nada será de uma hora pra outra'

Psicanalista Contardo Calligaris analisa a diversidade de sentimentos e aflições que brotam do confinamento social

A pandemia do coronavírus levou relatos novos para o divã, agora ele próprio - o divã - transformado em virtual. Contardo Calligaris, psicanalista e escritor, diz que o confinamento pode tanto colocar em segundo plano as aflições que até aqui existiam, como potencializá-las, em uma espécie de justificativa para posturas que sempre se quis ter na vida. Por outro lado, traz à tona questões como solidariedade, valores sociais e outras formas de interação. Autor de "Cartas a um jovem terapeuta" e "Coisa de Menina" (em conjunto com Maria Homem), ele aproveita o confinamento para escrever a versão masculina, "Coisa de Menino", que promete também lançar em Santos, em outubro.

Em tantos anos como psicanalista e já conhecendo parte das questões que afligem a mente humana, diria que a pandemia trouxe para o consultório alguma questão diferente?

Como sempre acontece em caso de catástrofes sociais ou naturais, o tema acaba ocupando um lugar predominante. São poucas as pessoas que chegam para sua sessão falando de algo diferente, que não tenha nada a ver com o que estamos vivendo. Um paralelo a isso foi em 2001, no 11 de setembro. Nessa época, eu atendia em Nova York. Durante várias semanas, de uma maneira ou outra, sob vários ângulos, o tema foi inevitável nas sessões: os sonhos, os pensamentos sobre futuro e passado, as preocupações, a relação com o luto.

E nesse momento de hoje, o sentimento é o mesmo que daquela época?

Veja, eu percebo duas coisas bastante diferentes. A primeira: há pessoas para quem a pandemia acalma a problemática mais dolorosa, mais singular. É como se de repente tivéssemos algo com que se preocupar muito mais importante do que os meus “pequenos problemas”. Entendendo “pequenos problemas” bem entre aspas, porque os problemas cotidianos são os problemas das pessoas. Ponto. Para outras, o que estamos vivendo é exatamente o contrário: o acontecimento torna os problemas pessoais mais agudos.

Como assim, mais agudos?

Vou te dar um exemplo. Aquela pessoa que sempre se queixava que não tem amigos, sempre fica sozinha em casa, de repente essa impotência que já existia de “sair para a vida” se torna sancionada, ou seja, se torna uma impossibilidade: eu não posso mesmo, porque decidi respeitar a quarentena. E isso é absolutamente insuportável. Engraçado, porque essa pessoa já passava todos os dias em casa, mas era por, digamos, impotência dela. Só que agora isso se torna totalmente insuportável sobretudo porque revela a essa pessoa que o que ela considerava uma premissa, na verdade era uma imposição, mas vinha profundamente de dentro dela mesma. O confinamento já existia dentro dela.

São essas as situações que predominam no consultório?

Existe uma outra, também, que é a sensação de alívio.

Alívio? Alívio de quê?

Assim: aquela pessoa que fazia meses procurava alguém, até mesmo nesses aplicativos de encontros, mas que tinha medo de encontrar de verdade. De repente, ela vê uma boa motivação para não encontrar mesmo, porque agora, nem que quisesse, não poderá encontrar. A pessoa se sente aliviada. Mas eu acho que todas essas situações que relatei duram um certo tempo. Eu acho que as pessoas começam a refletir sobre quanto essa situação, que a gente espera que seja passageira, reverbera, dialoga com as nossas impotências pessoais.

Temos visto muitas pessoas esclarecidas, que acompanham o desenrolar dos fatos e a gravidade da situação, agir de forma a não respeitar as recomendações. É um perfil de pessoas que está em negação?

Isso é bastante comum e bem estudado, especialmente nas situações iniciais de luto. É aquele pensamento que diz: “Não, isso não é verdade, isso não está acontecendo”. É a primeira reação de muitas pessoas, mesmo das mais esclarecidas. Fazendo um paralelo novamente com o 11 de setembro: uma coisa é você olhar para o seu horizonte e não enxergar mais as duas torres que estavam lá. Outra coisa é você ter um inimigo invisível como um vírus. Cadê o vírus? Em São Paulo, se o governo não mantiver a obrigação da quarentena, sob penas até mais duras, eu acredito que o confinamento vai relaxar mesmo. Mas existem outras razões para a negação também.

Outra razões?

Sim, veja: as pessoas negacionistas também veem uma contradição entre os governos federal e estadual. Não tivemos uma direção segura e única à crise. Então, o cidadão escuta na televisão que isso é só “uma gripezinha e um resfriadinho” e que tem que reabrir o comércio; de outro lado, o outro diz que precisa fechar, que a situação é grave, que já mandou cavar mil covas. Nessa contradição há espaço para o vacilo, para os negacionistas.

O brasileiro é um povo caloroso, valoriza o contato, o abraço, o beijo. Só que, agora, esse comportamento é proibitivo. O que a falta dessa manifestação amorosa pode acarretar às pessoas ao longo do tempo?

O que você diz é absolutamente verdade. No Brasil, você vai ao médico e é recebido com beijo e abraço. Isso não é comum em outros países (risos). Mas essa característica do toque é muito forte na cultura brasileira, e no momento atual, sem dúvida, há uma privação séria do contato físico com o outro. Isso é mais significativo para os que estão confinados sozinhos, e também para os idosos. Isso é cruel mesmo. E essa situação já chega ao consultório.

Chega?

Sim. Tenho pacientes que me pedem para construir uma forma de se relacionar intimamente para uma situação de coronavírus, tipo “como fazer amor sem pegar vírus?” Construir uma espécie de tutorial. É até curioso. Chega a ser divertido ver que isso preocupa a mente das pessoas, e com toda razão. Eu acho interessante pensar nisso. Uma experiência que trago comigo desde os anos 80, quando chegaram os primeiros casos da epidemia do HIV. Essa questão não é nada fácil, porque precisamos pensar assim: como eu vou viver de forma segura mas tendo um contato com as pessoas? 

Há pessoas que se consideram muito resilientes, fortes mesmo, quase inabaláveis em qualquer situação adversa. Mas sabemos que ninguém, de fato, é assim. Como identificar sinais de que você pode estar saindo do seu eixo sem perceber?

Olha, isso é fato, e é absolutamente individual. Há pessoas que conseguem manter a calma e seguir suas rotinas da melhor maneira, mas em algum momento podem surgir sinais, sim: uma sensação mais forte de angústia, uma crise repentina de pânico, insônia. E aí pode ser que essa pessoa precise de ajuda. Não por outro motivo os pedidos de atendimento explodiram.

Você já está sentindo uma procura maior?

Não necessariamente. O que acontecia, antes, é que em uma cidade como São Paulo, muitas vezes a pessoa acaba adiando ou cancelando a sessão em função de trânsito, compromisso de última hora....Agora é diferente. Não tenho mais nenhum horário vago, porque tudo é online. As pessoas estão precisando do atendimento e não têm mais por que cancelar. Eu acho que essa prática de fazer à distância vai continuar mesmo depois da pandemia.

Para os jovens que também estão privados dos encontros sociais, o tédio parece ser mais intenso, não?

Sim, e é preciso uma atenção maior. O que eu digo a eles é: continuem se encontrando, mas de forma virtual. Criem grupos de conversa, reunam-se todos os dias para compartilhar os sentimentos, as experiências. Isso vai ajudar a diminuir a ansiedade e a sensação de isolamento. Meu grande receio em relação aos adolescentes é que se enfurnem em casa e cortem o relacionamento com todos. Isso é bem ruim.

É possível antever algo sobre a sociedade pós-pandemia?

Olha, algumas coisas, penso que sim. A primeira delas é que as palmas não devem ir só para os profissionais da Saúde. Eu mesmo tenho descoberto as facilidades e a potência de pedir coisas em casa. Então, palmas para os entregadores, que não serão mais os mesmos depois disso (risos). Além disso, acho que tudo isso despertou no cidadão um espírito de solidariedade nunca visto antes. Também descobrimos o que é estar em casa o tempo todo, confinado sozinho ou com a família. Eu acho, sinceramente, que o mundo vai se repovoar devagar. Nada será de uma hora pra outra. 

E para você, pessoalmente, o que mudou?

Eu sobrevivi a dois diagnósticos de câncer. Então, acho que estou ganhando as batalhas até aqui, mas não quero viver a qualquer preço. Engraçado que me pego pensando em coisas para depois da pandemia. E não penso em visitar lugares novos. Penso em voltar a lugares que já visitei e que, de repente, me dá vontade de revisitar. A morte como tem sido com o coronavírus é muito cruel, para a pessoa e para a família. Para a pessoa, é com muito sofrimento, o que a faz perder algo essencial que é a experiência da morte. Para a família, privá-la de se relacionar com o corpo no momento da despedida. Isso é muito cruel.

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