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Sexta-feira

7 de Agosto de 2020

Alexandre Catena Volpe

Acadêmico do quinto ano do curso de Medicina da Universidade Metropolitana de Santos. Foi Diretor do Comitê de Saúde Pública da International Federation of Medical Students Brazil - Comitê Unimes e, atualmente, é Presidente do Centro Acadêmico Dr. José Martins Fontes (C.A.M.F.) e da Liga Acadêmica de Medicina Legal. Fundador do programa Giovana Pascoal de Combate ao Câncer em parceria com a Giovana Pascoal e Coordenador da Comissão de Saúde Pública e Ação Social do NJE da Ciesp Santos.

Tudo o que você precisa saber sobre os testes de diagnósticos do Covid-19

Alexandre Volpe entrevista Dr. Roberto Focaccia, Professor Titular de Infectologia da UNIMES e Livre-Docente pela Universidade de São Paulo

Com o número de novos casos e mortes provocados pelo novo coronavírus aumentando todos os dias no Brasil, e agora com a flexibilização da quarentena em várias cidades, ganha ainda mais importância a discussão sobre a necessidade da realização de testes em massa. Essa é, inclusive, a principal recomendação da OMS (Organização Mundial da Saúde) junto com o isolamento social. Para explicar um pouco mais sobre os testes de diagnóstico do covid-19 e também orientar sobre a conduta neste retorno das atividades, entrevistei um dos mais renomados infectologistas e epidemiologistas do país, Dr. Roberto Focaccia, Professor Titular de Infectologia da UNIMES e Livre-Docente pela Universidade de São Paulo. 

Quais são os testes para COVID-19?

R. Existem dois tipos de testes disponíveis. Um por biologia molecular para diagnóstico e os testes por sorologia que são úteis para estudos epidemiológicos. Todos estes testes de primeira geração são muito úteis, mas carecem de precisão. Lembram muito os primeiros testes que, em 1983, foram utilizados inicialmente na epidemia de Aids, em que tínhamos grande dificuldade em entender a correlação clínica com aqueles primeiros testes diagnósticos.

Qual o teste útil para o diagnóstico da Covid-19? 

R. Para o diagnóstico de COVID-19 devem ser utilizados os testes feitos por biologia molecular que detectam o ácido nucléico ou antígenos do SARS-Cov-2. São recomendados para diagnosticar infecção aguda. O teste PCR feito em tempo em real (RT-PCR) é o rotineiramente feito no Brasil com alta especificidade, sendo considerado “padrão de referência”. 

Como é coletado o material para esse teste diagnóstico?

R. As células do paciente são coletadas da narina e da orofaringe por swab (zaragatoa com algodão na ponta com uma haste plástica). Deve ser coletada entre o 4º. e 10º dia depois dos primeiros sintomas. Fora desse período pode não indicar a presença do vírus.

O teste positivo indica que o paciente é portador do vírus? E por quanto tempo? 

R. Esta é uma pergunta importante e necessita explicar. Até o 10º.dia de sintomatologia o resultado é altamente eficaz. Após esse período os vírus se reduzem drasticamente no organismo e, em consequência, um teste positivo não significa necessariamente que o paciente ainda seja portador do vírus. É por essa razão que após o 10. dia de sintomatologia e, com maior prudência após o 14º.  dia, o paciente deixa de ser contagiante já não se prestando como parâmetro para manter o paciente em isolamento. Bom lembrar que nesse período de convalescença podem permanecer a tosse seca e o cansaço por mais tempo. 

Os testes por RT-PCR podem dar falsos resultados positivos ou negativos?

R.  Sim. Podem ocorrer resultados falso-negativos que decorrem do fato que o RNA viral sofre oscilações no decorrer da infecção. Outra causa de falso resultado negativo pode ser devidos a erro de coleta, quer seja porque coletou-se material insuficiente ou porque foi coletado fora do período correto visto acima. Os falsos resultados positivos são mais raros, e decorrem de erros laboratoriais de alguns testes comercializados ou pela própria natureza dos testes. A sensibilidade do teste é muito alta, próximo de 99%, mas a especificidade é mais baixa, podendo haver reação cruzada com coronavírus sazonais não-SARS-CoV-2, ou mesmo com outros vírus respiratórios. Por essa razão é necessário sempre associar o laboratório à clínica. Para sua realização são utilizados insumos(“primers”) comercializados ou preparados no próprio laboratório (“in house”) Os testes feitos com insumos preparados no próprio laboratório costumam ser mais específicos. 

O fato de que muitos laboratórios não estarem capacitados para atender toda a demanda pode ter havido subnotificação de casos?

R. Certamente tem ocorrido. Milhares de casos de óbitos por COVID-19 não são contados pelo Ministério da Saúde porque muitos pacientes com quadro clínico sugestivo de COVID-19 vão à óbito com o diagnóstico apenas clínico. Estima-se que deva ter havido cerca de sete a dez vezes mais óbitos que os anunciados oficialmente. 

Com relação aos testes sorológicos são úteis clinicamente?

R. Não. Apesar da sensibilidade e especificidade ter melhorado ultimamente, não se prestam para o diagnóstico devido aos altos índices de falsos resultados positivos e negativos.

Quais são os testes sorológicos disponíveis e qual a sua precisão?

R.  Há três tipos detestes sorológicos para detectar anticorpos anti-COVID-19. Um teste imunoenzimático (ELISA) que apresenta sensibilidade de 84%, especialmente quando realizado por sangue centrifugado (soro) e com menor precisão quando feito em placa com gota de polpa digital, o segundo é por imunoensaio de fluxo lateral (LFIA) com baixa sensibilidade, em torno de 66%, que pesquisa imunoglobulinas (IgA,IgG e IgM), também conhecido por teste rápido e o mais usado no Brasil, e o mais sensível de todos que detecta anticorpos totais, realizado por quimioluminiscência (CLIA)  pode atingir até 98% de sensibilidade. As porcentagens de acurácia ditas acima foram informadas por estudo canadense elaborado calculou por revisão sistemática e meta-análise de mais 40 publicações em que foram testados quase 30.000 pacientes positivos de COVID-19.

Qual a indicação dos testes sorológicos?

R. Eles somente tem utilidade epidemiológica, para medir a oscilação da epidemia, indicar os locais onde o vírus circula mais, também para identificar os positivos e seus comunicantes, e permitir cálculos matemáticos sobre o grau de transmissibilidade do vírus em cada região. O Brasil tem feito um número pequeno de testes, geralmente com os de menor precisão e, portanto, de baixa confiabilidade. Os países asiáticos, como a Coreia do Sul, Taiwan, China, Nova Zelândia, e alguns europeus como a Alemanha, utilizaram o RT-PCR, que foi uma ferramenta epidemiológica importantíssima para o controle da epidemia. Como os anticorpos demoram para aparecer no sangue dos infectados, a sorologia perde sua importância diagnóstica, além de sua baixa especificidade. 

Os testes sorológicos podem servir de “passaporte para sair do isolamento ou voltar ao trabalho?

R. Não. Embora muitas empresas e Instituições estão erroneamente utilizando para tal, uma pessoa infectada com um falso resultado negativo pode involuntariamente correr riscos de espalhar o COVID-19 após receber um falso resultado negativo. Da mesma forma um indivíduo que recebe um falso resultado positivo, total ou IgG isolado, pode se expor ao contágio. 

A partir de quantos dias após o início dos sintomas é recomendado fazer um teste rápido? 

R. Ele só positiva depois do 7º. Ou 10.dia. Mas não recomendo o teste sorológico, muito menos o teste rápido, que p3squisa IgM e IgG. É caro e perigoso.

Farmácias e drogarias podem comercializar testes para Covid-19?

R. Infelizmente podem! Foi uma decisão equivocada do Ministério da Saúde. 

O que é a sensibilidade e especificidade de um teste diagnóstico?

R. Do ponto de vista epidemiológico define-se Sensibilidade como a probabilidade de um paciente efetivamente infectado ter o seu teste positivo para aquela doença. A Especificidade é a capacidade do teste de indicar que efetivamente o indivíduo não tem a doença. 

Estando em isolamento social devido a um contato suspeito para COVID-19 ou em quarentena por ter adquirido a infecção, quando devo retornar as atividades sem risco de contaminação?

R. Segundo o Centro de Controle de Doenças dos Estados Unidos (que é o maior e mais importante centro epidemiológico do mundo) após 10 dias, e com mais segurança 14 dias pode sair do isolamento. Já quando em quarentena devido estar infectado, há duas maneiras de voltar ao trabalho: se tiver RT-PCR disponível, quando dois testes estiverem negativos com intervalo de 48 horas entre eles e ausência de sintomas (exceção tosse seca e cansaço) e após pelo menos 10 dias do início dos sintomas. Se não tiver RT-PCR disponível, na ausência de sintomas e após pelo menos 10 dias do início dos sintomas.

Durante a quarentena de um paciente ou suspeito de contágio, o uso da máscara evita contaminação entre as pessoas que residem comigo?

R. Sim quando estiver próximo de outras pessoas da casa, além de separar o quarto e o banheiro se possível, lavar toda a roupa e utensílios utilizados pelo paciente. Manter a casa ventilada abrindo janelas e portas. Não usar ar condicionado.

O relaxamento da quarentena no estado foi precipitada?

R. Sem Dúvida, sim, porque ainda estamos em crescimento exponencial numa 1ª. onda, porque o nível de transmissão do vírus ainda está muito e porque apesar da epidemia se deslocar agora para o interior, as pessoas circulam intensamente entre as cidades. E porque o isolamento social não é devidamente respeitado pela população por falta de disciplina cultural e a ausência de uma liderança sanitária tal como ocorreu nos países asiáticos e europeus. A meu juízo é extremamente preocupante.

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