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Sexta-feira

10 de Julho de 2020

Alexandre Catena Volpe

Acadêmico do quinto ano do curso de Medicina da Universidade Metropolitana de Santos. Foi Diretor do Comitê de Saúde Pública da International Federation of Medical Students Brazil - Comitê Unimes e, atualmente, é Presidente do Centro Acadêmico Dr. José Martins Fontes (C.A.M.F.) e da Liga Acadêmica de Medicina Legal. Fundador do programa Giovana Pascoal de Combate ao Câncer em parceria com a Giovana Pascoal e Coordenador da Comissão de Saúde Pública e Ação Social do NJE da Ciesp Santos.

'Quebrei o tabu'

Doutora Neusa Bittar, médica, advogada e professora universitária, conta como foi ser uma das primeiras cirurgiãs do Brasil na época em que as mulheres não tinham oportunidades

No mês de março comemoramos o Dia Internacional da Mulher. Neste período, nada melhor do que discutirmos a luta das mulheres por igualdade de gênero.

Apesar da desigualdade ainda prevalecer, no passado, as primeiras mulheres a se formarem em medicina no Brasil sofriam com proibições, discriminações e preconceitos. Nos dias atuais, é possível ver uma feminização da profissão, com uma significativa presença das mulheres em diversas áreas da profissão e nos bancos universitários.

Diante destes fatos, trago a história de luta da renomada médica, advogada e professora universitária, doutora Neusa Maria Esteves Bittar, que se formou em 1973 na Faculdade de Ciências Médicas de Santos.

Confira o relato:

Eu vim de uma época em que as mulheres não eram criadas para estudar, e sim para se casar. Durante minha infância e adolescência, estudei em um colégio religioso de Santos e, ao concluir o ginásio, tínhamos de escolher entre cursar o científico (engenharia, medicina), o clássico (direito, letras) ou o normal (professora de ensino primário).

A grande maioria das mulheres optava pelo normal. As que escolhiam o científico eram marginalizadas, e eu escolhi o científico, visando à Medicina. Lembro que, quando fui aprovada no vestibular de Medicina, aos 17 anos, isso não foi motivo de orgulho para o colégio. Na minha vida, foi uma mudança radical. Amei a faculdade e me identifiquei com tudo que havia ali, em específico com a cirurgia.

Durante meu terceiro ano na graduação, comecei a acompanhar o cirurgião Dr. Victor Vallejo Fernandez em seus plantões, um dos maiores médicos da história de Santos, principalmente pela sua ousadia e habilidade na medicina. Foi ele que pegou na minha mão para me ensinar a operar.

Naquela época, quem fazia cirurgia geral, também fazia ginecologia e obstetrícia. Quando me formei, num primeiro momento, decidi fazer ginecologia, mas ao longo da residência notei que não era isso que eu queria pois, como mulher, não me passava pela cabeça ser cirurgiã geral, principalmente pelo panorama daquela época.

Durante a residência em Santos eu trabalhava muito, atendia e preparava o paciente mas, na hora de entrar no campo cirúrgico, era um residente homem que atuava, sempre com a mesma desculpa: “Neusa, não repara, mas hoje é ele”. Este fato me deixava extremamente descontente. Até que um dia eu virei as costas, passei na diretoria do hospital e fui embora.

Consegui, por meio de um concurso, ser médica plantonista do Hospital Guilherme Álvaro. No fim daquele ano prestei a residência novamente mas, desta vez, no Hospital Heliópolis e no Hospital das Clínicas, em São Paulo. Fui aprovada no Heliópolis e, já cursando a residência de cirurgia nesse hospital, fiz o concurso para o Hospital das Clínicas. Passei na primeira fase das Clínicas com a maior nota, mas fui reprovada na segunda fase, que era uma entrevista, pelos mesmos motivos de sempre: ser mulher e achar que a nota prova seria minha carta de apresentação.

Agradeço muito por ter sido reprovada, pois na residência no Heliópolis fiz tudo que queria fazer, operava diversos pacientes, fui respeitada e, sem dúvida, foi a melhor opção da minha vida. A mulher tem muitas coisas ao seu favor, pois possui uma mão menor para atingir certas estruturas do corpo humano, além de um potente equilíbrio emocional. 

Ao concluir a residência, retornei para Santos e comecei a minha carreira, mas as portas estavam todas fechadas, e diante disto, procurei um médico conhecido que era diretor clínico de um determinado hospital. Afinal, alguém tinha de ser louco o suficiente para empregar uma cirurgiã, e ele foi.

No começo, olhavam-me como algo pitoresco mas, ao longo do tempo, essa visão mudou e ficou claro que eu era profissional. Entretanto, estava quebrando, em Santos, o tabu de que só homens poderiam ser cirurgiões e isso afrontou o sistema. Passei por diversas situações difíceis, incluindo uma extremamente absurda, entrando às vezes em desespero. Num certo dia, estava ouvindo música e começou a tocar “Se eu quiser falar com Deus”, do Gilberto Gil, que cita na sua letra: “tenho que lamber o chão dos palácios e castelos suntuosos dos meus sonhos”.

Realmente, perdi a conta das vezes que lambi o chão. Valeu a pena? Valeu muito a pena, pois vivi intensamente. A medicina me dava uma satisfação tão grande que que dificultava colocar preço na minha prestação de serviço. Lembro-me de um caso marcante, onde um paciente, filho único, um ano mais velho do que eu, com um quadro de hemorragia digestiva severa, ao ter alta após eu operar, perguntou quanto me devia e eu não cobrei absolutamente nada, porque tem coisas na vida que não têm preço. A medicina é assim.

Sempre tive muita clientela no consultório porque também me especializei em proctologia, e me capacitei para tudo o que fiz. Fui cuidadosa no exercício da profissão, pois entendia que estava nas minhas mãos abrir ou fechar as portas para as outras cirurgiãs que se aventurassem como eu. Depois de anos, notei que algo me faltava, e então decidi fazer direito na Universidade Católica de Santos. Foi maravilhoso, enriqueci meu vocabulário, desenvolvi minha escrita e fala, além de fazer muitos amigos. Com os anos passando, comecei a perceber que não queria ficar no exercício da medicina além do tempo em que seria útil. Isto é, em que eu ainda estaria apta a operar sem colocar nada em risco, pois a idade para a cirurgiã começa a pesar.

Resolvi, então, me aposentar como médica e me dedicar à carreira docente utilizando dos conhecimentos adquiridos e da experiência. Passei a me dedicar ao estudo dos aspectos médicos legais, criei uma apostila, que ao longo do tempo se tornou o meu livro de medicina legal, que hoje está na sua nona edição.

Nesta carreira de professora, tive muitos momentos alegres, fui homenageada como paraninfa, patronesse, e me surpreendendo a cada dia. No ano passado, uma nova surpresa e uma das maiores honras: ser convidada para assumir a preceptoria da Liga de Medicina Legal da Faculdade de Medicina da Universidade Metropolitana de Santos. É muito bom voltar às minhas origens, principalmente retomando o contato com estes novos estudantes de medicina, que acendem em mim a antiga chama e reavivam o sentido do que fui em toda minha vida.

Se eu pudesse deixar uma mensagem para todos os médicos, eu diria o ensinamento do meu grande amigo Dr. Nilton Gomes: o profissional se faz com quatro Hs, onde o primeiro H é de honestidade, o segundo de habilidade, o terceiro de humanidade e o quarto de humildade. Só somos realmente profissionais quando começamos a exercer o quarto H, de humildade.

Agora, em especial para as médicas, lembrando do primeiro elogio que recebi de um paciente – na medicina, a senhora é um homem - eu diria que vocês não precisam ser iguais aos homens e, sim, utilizar profissionalmente daquilo que a natureza lhes deu. Ou seja, as mãos menores, mais sensibilidade e paciência, sempre lembrando de que não é aos outros que precisam vencer, mas a si mesmas, aos seus medos, limitações e inseguranças.

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