São Jorge, a 'vila' do outro lado do morro que resistiu ao tempo

Bairro de Santos fica na Zona Noroeste, área que muito turista (e até santista) nunca colocou os pés

Longe da praia, nas encostas do Morro da Nova Cintra, existe um bairro onde parece que o tempo andou mais devagar. O São Jorge está na Zona Noroeste, uma Santos que os turistas nem sabem direito que existe, misturada a uma parte de São Vicente e onde muita gente que mora e cresceu na Zona Leste, com o mar de quintal, nunca pisou.

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É lá também que está uma das edificações mais bonitas da cidade: o Monumento Nacional Ruínas Engenho dos Erasmos. Tombado em todas as instâncias, o espaço em ruinas é administrado pela Universidade de São Paulo (USP) desde 1958. De 2004 pra cá, tem atividades educacionais e arqueológicas. Segundo o Arquivo do Estado, é o Engenho de Açúcar remanescente mais antigo do País. 

Mas o São Jorge (antes chamado de Vila São Jorge) preserva ares de interior mesmo, segundo os moradores antigos, que dizem ser de maioria aposentados de doqueiros e estivadores. “Aqui, todo mundo se conhece, é como uma grande família”, define o doqueiro aposentado Adilson Freire, de 68 anos, morador do bairro há mais de 30 anos. 

Ele vive num dos apartamentos do Conjunto Residencial Parque do Engenho, conhecido como Conjunto dos Estivadores. São 21 blocos de prédios distribuídos pela Rua Engenheiro Gercino Hugo Capareli, característicos do bairro justamente por serem uma das únicas edificações do local, predominantemente loteado com casas.

Ainda assim, essa característica em nada muda o clima ameno que ainda habita a região. “Nós sofremos com as enchentes seja quanto a maré sobe, seja em chuvas, mas ainda assim é um bairro muito de se morar. Meus amigos da época das Docas estão praticamente todos aqui ainda”, diz Freire, que curtia a sombra numa mesinha da pracinha que fica em frente a uma das entradas do conjunto. 

O clima é o mesmo pelas ruas do bairro, onde comércio grande mesmo só lá para os lados da Avenida Nossa Senhora de Fátima. 

Na divisa com São Vicente da Avenida Eleonor Roosevelt, Luiz Xavier, de 68 anos, outro doqueiro diz que se acostumou a morar ali depois de 27 anos. 

“É um bairro bom, sim. O problema, que eu duvido que eu ainda veja resolvido pela minha idade, é isso da enchente. Mas é difícil, né? Vivemos numa ilha. Ilha inunda”, dispara ele, que recorda diversas histórias. “Quando eu cheguei aqui, era tudo mato. A gente matava cobra na rua”, lembra.

Ainda, o aposentado conta que desde que comprou o apartamento não se arrepende. Se mudou e hoje vê sua valorização. “Onde que eu você acha preços assim em Santos. Lá na praia é um cubículo por um preço absurdo, muito subestimado”, diz.

Na pracinha que ganhou banca e até mesinha para xadrez, se junta à conversa a também aposentada Djalma Melo, de 75 anos, com seus três cachorros.

Ela também gosta de viver no São Jorge, só pede que as atenções dadas à praia sejam as mesmas à ZN. “Eu gosto daqui, é um bairro residencial, nos conhecemos, vivemos bem, mas ainda é preciso mais atenção”, diz ela, apontando para a sujeira da Praça Otávio Ribeiro de Araújo, onde vê-se lixo espalhado junto aos matos baixos. 

 

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