Veja como os navios no Porto de Santos são atendidos nas 24 horas do dia

Há 75 anos, a fornecedora santista G. Pierotti abastece embarcações com tudo necessário a tripulantes ou passageiros

Por: Ted Sartori  -  15/05/24  -  11:11
Atualizado em 20/05/24 - 18:36
Há 75 anos, a fornecedora santista G. Pierotti abastece embarcações com tudo necessário a tripulantes ou passageiros
Há 75 anos, a fornecedora santista G. Pierotti abastece embarcações com tudo necessário a tripulantes ou passageiros   Foto: Alexsander Ferraz

Imagine um lugar onde se pode comprar de tudo. Certamente qualquer um vai se lembrar de um supermercado. Mas e se você for tripulante de um navio cargueiro, fizer parte do contingente de uma embarcação militar ou estiver a bordo de um cruzeiro marítimo? A solução para tudo o que é necessário, da alimentação até maquinários, passa por uma empresa fornecedora a navios.


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Há 75 anos, desde 1º de maio de 1949, a G. Pierotti Ship Supplier, com sede no Valongo, em Santos, e filial em São Sebastião, conhece muito bem esse universo de fornecimento. A sucessora da Mansueto Pierotti faz a intermediação entre quem está no mar e o que se encontra em terra.


“Nossa atividade é considerada essencial para sobrevivência e salvaguarda da vida humana no mar pela IMO (Organização Marítima Internacional, da sigla em inglês), que é um órgão da ONU (Organização das Nações Unidas). Na pandemia (de covid-19), trabalhamos diariamente de portas abertas”, lembra o presidente da empresa, Geraldo Pierotti.


Embora os itens mais solicitados pelas embarcações sejam gêneros de primeira necessidade, como alimentos, bebidas, material de limpeza e até ferramentas, o que representa 70% do movimento, o uso da palavra “tudo” não é gratuito. “Às vezes, pedem uma máquina de lavar, uma secadora, um televisor ou um computador. Se querem, vamos entregar”, afirma Geraldo.


Há ocasiões em que os pedidos dos navios cargueiros são inusitados. Há cerca de 50 anos, o próprio Geraldo Pierotti teve de levar um carneiro vivo para um navio de tripulação muçulmana. Mais recentemente, foram preservativos, bonecas infláveis com lingerie e até manequins de lojas com físico avantajado.


“Os manequins foram para um navio que fazia linhas da Somália e havia muitos assaltos de piratas. Então, eles vestiam o manequim com roupa de segurança e colocavam um simulacro de arma na mão dele. Claro que, se o pirata chegar perto, vai ver que é um boneco, mas são tantos navios que, quando olham de binóculo, já descartam aquela embarcação e escolhem uma que não tenha risco”, detalha o presidente.


Entre os cruzeiros, Geraldo Pierotti se recorda de um navio italiano que encomendou hóstias. “Foi na época em que Santos ainda não era roteiro de cruzeiros marítimos. Eles vinham uma vez ou outra. E a embarcação tinha uma capela e um capelão para celebrar missa a bordo. Saímos consultando igrejas e mandamos fazer para entregar”.


Gustavo, o filho, e Geraldo, o pai: gerações à frente da G. Pierotti Ship Supplier Limitada
Gustavo, o filho, e Geraldo, o pai: gerações à frente da G. Pierotti Ship Supplier Limitada   Foto: Alexsander Ferraz

Previsibilidade
Os cargueiros representam os pedidos mais constantes, até por estarem no Porto de Santos durante o ano todo, ao contrário dos cruzeiros. As quantidades solicitadas é que acabam sendo distintas.


“Há navios que compram para abastecimento de três meses, por exemplo, o que representa uma média de seis toneladas de produtos em geral, divididos em hortifrúti, proteínas animais (carne, frango, porco e peixe) e outros itens, como laticínios. Também tem embarcações que só complementam o que já adquiriram em outro porto, às vezes 200 kg ou 500 kg”, exemplifica o diretor comercial, Gustavo Pierotti, filho de Geraldo. Já os de cruzeiros, diz ele, podem pedir até duas toneladas de um único produto, como uma fruta.


A antecedência das solicitações depende da organização dos navios. “Há clientes em que os pedidos chegam na véspera da atracação, enquanto outros mandam uma, duas ou até três semanas antes”. diz Gustavo.


As embarcações de carga, porém, representam um desafio pela falta de previsibilidade de atracação, diferentemente dos navios de passageiros, com calendário de entrada e saída no complexo portuário santista - definido cerca de um ano antes.


Essa realidade obriga a G. Pierotti a ter muita inteligência do setor de compras para minimizar perdas, em especial de produtos frescos, como verduras e frutas.


“Por exemplo, um navio petroleiro que, por algum motivo operacional ou emergencial, não vai atracar mais em Santos e já está com toda a mercadoria comprada. Para não perder muito produto perecível, verificamos com o próximo navio a atracar quais itens coincidem e as quantidades que dispomos”, ressalta Gustavo.


Ele lembra que dispor de um bom estoque na empresa é fundamental. “Se não tiver parte da mercadoria aqui dentro, não dá tempo de comprar”, explica o diretor comercial.


Quando imprevistos acontecem com as embarcações e as mercadorias não podem ser entregues dentro do tempo ideal para consumo, elas são doadas – ainda aptas para o consumo – a entidades assistenciais, tal como fazia o fundador da empresa, Mansueto Pierotti, pai de Geraldo e avô de Gustavo.


“Todo dia tem caminhão das entidades na empresa para que façamos essa divisão”, conta Geraldo.


Com mais de 100 funcionários, a G. Pierotti Ship Supplier Limitada segue com trabalho de vital importância para os navios
Com mais de 100 funcionários, a G. Pierotti Ship Supplier Limitada segue com trabalho de vital importância para os navios   Foto: Alexsander Ferraz

Futuro promissor
Apesar de os navios de cruzeiros terem passado a comprar muitas vezes diretamente dos produtores, uma empresa como a G. Pierotti seguirá tendo vital importância, na avaliação do diretor comercial. Os motivos são a proximidade com os clientes e a agilidade para a solução de problemas.


“Estrategicamente, somos necessários. Não vou conseguir competir com o produtor, mas essas indústrias não têm a flexibilidade que a gente tem, estão longe disso. As empresas de cruzeiros sabem que, na hora da emergência, nós é que vamos atender. Trabalhamos 24 horas, todos os dias. Não temos hora. Nosso cliente está em primeiro lugar”, destaca Gustavo.


Nacionalidades

A nacionalidade da tripulação e dos passageiros do navio é um dos fatores primordiais para tipos de pedidos, em especial no que diz respeito a alimentos e bebidas, lembra o diretor comercial da G. Pierotti, Gustavo Pierotti.


“De cada pedido, 20% dos itens variam dependendo da etnia da tripulação. O restante é aquilo que todo navio consome, independentemente do país, como tomate, cebola, batata, alface e cenoura, por exemplo”, explica.


Os muçulmanos não consomem carne de porco, enquanto a vermelha tem de ser com corte halal, que em árabe significa lícito ou autorizado. A situação é semelhante com os judeus, em que os alimentos têm de ser preparados de acordo com as leis judaicas de alimentação e são chamados de kosher ou kasher - bom e próprio em hebraico. O ritual tem de proporcionar a eliminação do máximo de sangue possível no sacrifício do animal, sem que sofra.


“Não tenho atendido muitos tripulantes judeus, mas os navios de passageiros fazem essa solicitação, quando haverá um grupo de judeus embarcando. Precisamos, inclusive, entrar em contato com a Comunidade Judaica em São Paulo, porque é produzido por eles, que fazem pequenas bandejas fechadas preparadas da maneira adequada. No navio é descongelado e os tripulantes ou passageiros judeus são servidos”, explica Gustavo.


A rigidez relacionada à bebida alcoólica também é enorme, de acordo com o diretor comercial da G. Pierotti. Ele destaca um armador de navios de carga de contêineres com comandos em locais diferentes, o que atinge as regras.


“Há navios desse armador, sob gerenciamento de um escritório em Sorrento, na Itália, em que a tripulação e oficiais são europeus. Neles, é permitida a venda de bebidas alcoólicas leves, tipo cerveja e vinho. E há outros que estão sob o guarda-chuva de um escritório no Chipre, geralmente com tripulação muçulmana, e que, por questões religiosas, proíbe a comercialização de bebidas alcoólicas. Se acontecer algum erro, eles são inflexíveis e nos descredenciam, como já aconteceu com outros fornecedores ao redor do mundo”, detalha.


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