Frederico Bussinger: Farol de popa, farol de proa

Na última coluna do ano, o consultor, engenheiro e economista relata o que aprendeu a acompanhar e escrever sobre o setor portuário

Por: Frederico Bussinger  -  27/12/19  -  20:17
Movimentação de cargas caiu 10% comparado ao mesmo período de 2018
Movimentação de cargas caiu 10% comparado ao mesmo período de 2018   Foto: Carlos Nogueira/ AT

“As coisas estão no mundo,
só que eu preciso aprender…” (Paulinho da Viola)


“Prefiro os que me criticam,porque me corrigem,
aos que me elogiam,porque me corrompem” (Santo Agostinho)


Esta coluna completa um ano. A cada sexta-feira deste 2019, ela buscou contextualizar e analisar algum fato/tema recentemente noticiado (e entendido como relevante) relacionado à logística, à mobilidade e à infraestrutura: minha gratidão aos editores pelo convite e oportunidade.


Mas grato, também, pois me considero o principal beneficiário: a disciplina da coluna semanal me obrigou a acompanhar mais de perto o noticiário, pesquisar e refletir. Aprendi muito! Aprendi, também, com as centenas de comentários a cada artigo; fossem elogiosos, críticos ou meras reclamações.


Inclusive muitos dos temas/abordagens foram sugestões/cobranças dos leitores: essa interação me rendeu, além do aprendizado, gratificante ampliação da rede de relacionamentos, ainda que a maioria virtual, é verdade!


Tal privilegiado espaço, concedido por A Tribuna, permitiu-me, por outro lado, observar melhor esses setores e seus processos decisórios. Nesse apagar de luzes, compartilho algumas dessas observações por imaginar poderem vir a ser úteis para os próximos passos das reformas em marcha.


P.ex: Seria exemplo de comportamento do “homem cordial” de que fala Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil? Seria resultante do Fla-Flu que se instalou no País no passado recente? Seria uma comprovação do dito popular de “quem tem..., tem medo”? A primeira vista cada um contribui um pouco para explicar esse comportamento, até usual, de alguns executivos e representantes: posicionamento de uma forma no privado e, em público, de outra (muito díspares, em alguns casos).


Sobre base tão movediças, novos arranjos (institucionais, organizacionais, etc) podem até ser propostos, e mesmo implementados, mas dificilmente proverão as seguranças de que o setor necessita no médio/longo prazo. Aliás, tal conveniente esquizofrenia não é boa nem para o dirigente público, normalmente elogiado/apoiado!


Que ironia: mais à frente reclama-se da falta de transparência, previsibilidade ou segurança (de planos, modelos e/ou marcos regulatórios)! Como, se elas foram desconstruídas passo a passo? Arranjos pactuados muito contribuem para suas consecuções.


Só que eles exigem: I) debates, de verdade, muito além de monólogos paralelos ou de mera promoção de ideias/projetos; típico da “sociedade do espetáculo” (Guy Debord). Para tanto há método consagrado: a clássica trilogia (tese, antítese e síntese), desenvolvida por Hegel sobre os pilares de Heráclito (5 séculos AC). II) participação, compromisso: aos que contam com salvadores da pátria, ou esperam por Genis, recomenda-se a obra de Alexis de Tocqueville do início do Século XIX: Da Democracia na América.


Seria um exagero dizer-se que privilegiamos nas análises, nos debates e nas proposições os espíritos opinativo e “jabuticabeiro”? Ou seja: I) pouca preocupação com a fundamentação, com a consistência e a coerência das propostas/projetos? II) frisson pelo singular, pelo inusitado, com desprezo a (bons e maus) exemplos/lições de terceiros; muito influenciado pela leitura acrítica de “inovação”? Nesses setores exemplos não faltam!


Fácil certamente não é: muitos desses comportamentos e características têm raízes históricas e culturais; o que exigiria análises mais profundas no campo psico, sócio, político. Mas como, ainda assim, também é possível arrolar-se exemplos positivos de mudanças no Brasil, “a esperança é a última que morre”.


Seja bem-vindo, 2020!


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