Otto Burlier: "A navegação interior é essencial para o desenvolvimento logístico do País e a SNHN tem papel central para transformar esse potencial em resultados concretos” (Lucas Bolzan/Mpor/Divulgação) Secretário nacional de Hidrovias e Navegação do Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) desde o último dia 18 de novembro, Otto Luiz Burlier da Silveira Filho afirmou que assumiu a pasta com a missão de transformar o potencial hidroviário brasileiro em resultados concretos. Servidor de carreira com ampla experiência em políticas de infraestrutura de transportes, ele destacou, em entrevista para A Tribuna, prioridades como modernização, fortalecimento da navegação interior e avanço na transição ecológica — com prioridade ao lançamento do edital do Tramo Sul da Hidrovia do Paraguai. Clique aqui para seguir agora o canal Porto Tribuna no WhatsApp! O que significa para o senhor assumir a Secretaria Nacional de Hidrovias e Navegação (SNHN)? Significa liderar um setor estratégico, com enorme potencial para melhorar a competitividade nacional, ampliar a integração entre regiões e promover um desenvolvimento mais sustentável. Também representa o compromisso de fortalecer a navegação interior e a cabotagem, ampliar oportunidades para as regiões ribeirinhas e oferecer alternativas de transporte mais seguras e com menor impacto ambiental, além de melhorar a conectividade da população que depende desse tipo de transporte. Como a secretaria se conecta à Marinha Mercante e à indústria naval? A secretaria é responsável pelas ações de fomento à Marinha Mercante e à indústria naval brasileira, por meio da gestão do Fundo da Marinha Mercante (FMM), instrumento essencial para estimular investimentos, gerar empregos e modernizar nossa frota e a infraestrutura aquaviária do País. É a chance de aplicar minha experiência no serviço público para organizar políticas e projetos que tragam resultados concretos para o sistema hidroviário. O senhor é servidor público de carreira e foi diretor de Gestão e Modernização Portuária no então Ministério da Infraestrutura, atuou no Programa de Parcerias de Investimentos (PPI), nos ministérios do Planejamento e da Agricultura, na então Secretaria Especial de Portos e no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), colaborando com projetos em portos, aeroportos, ferrovias, rodovias e hidrovias. Essa bagagem será um diferencial na sua nova gestão? Minha trajetória no serviço público, em diferentes órgãos e áreas estratégicas, me proporcionou uma visão completa do sistema de transportes. Trabalhei desde a formulação e planejamento de políticas até a execução e o monitoramento de projetos. Essa experiência, somada ao trabalho com governança, investimentos e parcerias, é um diferencial que pretendo aplicar na gestão da secretaria. Qual é o papel da SNHN? A navegação interior é essencial para o desenvolvimento logístico do País e a SNHN tem papel central para transformar esse potencial em resultados concretos. Conhecer os instrumentos de planejamento, os desafios regulatórios, a relação com outros modos de transporte e a lógica dos investimentos públicos e privados contribui para acelerar processos, tomar decisões mais qualificadas e estruturar projetos mais robustos. Essa bagagem me prepara para conduzir uma gestão técnica, articulada com diversos atores dentro e fora do Governo, focada em entregas reais para o setor hidroviário e de navegação e, sobretudo, para o desenvolvimento do Brasil. Uma das prioridades é o Tramo Sul da Hidrovia do Paraguai. Quando o edital será lançado? Estamos em diálogo com os órgãos de controle e com os entes envolvidos, garantindo que o edital seja lançado com a robustez exigida para um empreendimento dessa relevância. A previsão é publicar o edital e realizar o leilão no primeiro semestre de 2026. O Tramo Sul é estratégico para o Mato Grosso do Sul e para o Brasil porque viabiliza o transporte de grãos, combustíveis e outros insumos entre Porto Murtinho (MS), a Bolívia, o Paraguai e a Argentina. Essa rota reduz custos, já que o transporte por hidrovia é mais barato por tonelada do que o rodoviário. Atualmente, a navegação depende do nível do Rio Paraguai, que muda ao longo do ano. Em períodos de seca, alguns trechos ficam mais difíceis de navegar. Otto Burlier: "A Baixada Santista reúne condições naturais e logísticas que tornam o transporte hidroviário promissor para ampliar a eficiência” (Lucas Bolzan/Mpor/Divulgação) Quais são os principais desafios a serem superados no modal hidroviário? O primeiro é garantir boas condições de navegação, o que exige ações constantes de sinalização, balizamento, dragagem e monitoramento do nível dos rios. Outro desafio é integrar melhor as hidrovias com portos, ferrovias e rodovias. Em muitas regiões, essa conexão ainda é limitada, o que reduz a competitividade do modal. Também é necessário melhorar o planejamento e a regulação. O setor precisa de dados confiáveis, regras mais claras e segurança jurídica para atrair investimentos públicos e privados. Além disso, eventos climáticos extremos — como longos períodos de seca — exigem soluções técnicas consistentes e coordenação permanente com órgãos ambientais. É importante fortalecer a cultura do uso da hidrovia no País. Quais são os seus planos para atrair investimentos privados? Comunicar mais e melhor os benefícios e oportunidades dessa agenda para toda a sociedade brasileira e o setor produtivo, principalmente concessões hidroviárias. A secretaria tem projetos voltados à transição ecológica e à descarbonização do transporte? A secretaria coordena uma agenda estratégica voltada à transição ecológica e à descarbonização do transporte aquaviário. Entre as iniciativas em andamento destacam-se a Política Nacional de Desenvolvimento Hidroviário Sustentável, o programa BR do Mar, o financiamento de projetos aquaviários por meio do Fundo da Marinha Mercante e a carteira de investimentos públicos e privados em infraestrutura de transporte. A partir desses instrumentos, nossa prioridade é avançar na modernização dos corredores hidroviários, incentivar tecnologias de menor impacto ambiental e ampliar soluções que reduzam emissões. A Baixada Santista possui uma rede fluvial que nasce na Serra do Mar e deságua no oceano, com cerca de 180 km de extensão. Mas, este potencial é mais explorado para abastecimento público e uso portuário/industrial do que para transporte hidroviário, apesar de 35 km serem navegáveis. O senhor tem projetos para a região? A Baixada Santista reúne condições naturais e logísticas que tornam o transporte hidroviário promissor para ampliar a eficiência da movimentação de cargas entre o Porto de Santos e o interior do País. Esse conjunto de hidrovias pode fortalecer conexões entre Bertioga, Cubatão, Guarujá, Praia Grande, Santos e São Vicente gerando possíveis deslocamentos de cargas de forma sustentável e complementar aos demais modais. Apesar de ser uma hidrovia estadual, a secretaria acompanha iniciativas que buscam melhorar as condições de navegabilidade, segurança e infraestrutura aquaviária na região. O objetivo é estimular soluções integradas às políticas nacionais de transporte e ao planejamento estratégico do setor aquaviário. É viável criar um sistema intermodal com o Porto de Santos nos trechos navegáveis da Baixada? A utilização dos trechos navegáveis da Baixada Santista como conexão fluvial ao Porto de Santos é, em tese, uma alternativa viável para ampliar a intermodalidade e reduzir os gargalos terrestres. O acesso às hinterlândias dos portos marítimos pela via fluvial é uma alternativa aos gargalos terrestres, permitindo viagens mais curtas. Outra vantagem é reduzir o consumo de energia. Mas, as ações dependem da cooperação entre as autoridades portuárias, os governos Federal e Estadual e os responsáveis por outras infraestruturas, principalmente por hidrovias. Para isso, serão necessários estudos futuros.