Santista retorna ao Porto como oficial de marinha mercante: ‘realização de um sonho’

Victor Fazion Coelho, de 24 anos, foi um dos melhores alunos do Centro de Instrução Almirante Graça Aranha (Ciaga), no Rio de Janeiro, e voltou a Santos a bordo do veleiro Cisne Branco

A escolha da carreira ideal não foi nada difícil para o santista Victor Fazion Coelho, de 24 anos. Aos seis anos, uma visita ao porta-aviões São Paulo, na sede da Capitania dos Portos de São Paulo (CPSP), despertou o sonho de viver no mar. Nesta sexta-feira (19), o retorno ao Porto de Santos representou a realização de um sonho. A bordo do veleiro Cisne Branco e, agora, formando da Escola de Formação de Oficiais da Marinha Mercante (Efomm), ele concluiu uma importante etapa como um dos melhores alunos da instituição. 

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“Para mim, voltar aqui foi a realização de um sonho. Desde criança, ficava na praia vendo navios entrando e saindo. E, hoje, entrei a bordo no Porto que eu sempre vi aqui perto. É muito gratificante, principalmente por estar no Cisne Branco, nessa experiência única”, contou o praticante.  

Apesar da pouca idade, a jornada foi longa. Foram quatro anos de estudos, dois deles em cursinhos pré-vestibulares, para garantir uma vaga no concurso público que deu acesso à formação, no Rio de Janeiro. A Efomm é considerada uma universidade do mar, um centro de referência para a formação de oficiais da marinha mercante.  

No caso de Victor, a formação aconteceu no Centro de Instrução Almirante Graça Aranha (Ciaga), na capital fluminense. Foram três anos de estudos, concluídos no final do ano passado. Agora, ele ainda deve fazer uma espécie de estágio e ficar um ano embarcado em um cargueiro.  

“Estamos esperando empresas da marinha mercante chamarem para embarcar, como se fosse um estagiário. Nesse caso, a gente não tem responsabilidade, mas acompanha o serviço de todo mundo. A pandemia atrasou essa fila. Posso ser chamado em julho ou só no ano que vem”, explicou Victor. 

Ao final do estágio, ele será um 2º tenente da reserva da Marinha do Brasil e 2º oficial de náutica da marinha mercante. A partir daí, a evolução do cargo vem com o tempo de navegação. O próximo posto será 1º oficial de náutica, em seguida capitão de cabotagem e, por fim, capitão de longo curso.  

“A primeira coisa que as pessoas falam para alguém que pensa em entrar na marinha mercante é que você vai passar muito tempo longe da sua família. Mas, hoje em dia, as escalas estão bem melhores do que antigamente, mais curtas. Você passa o mesmo tempo embarcado e em casa. Geralmente, são 28 dias, só que sem descanso, trabalhando todos os dias. E, com isso, há um desgaste muito grande. É preciso todo um cuidado com a saúde mental do tripulante”, explicou Victor.  

Futuro 

O plano de vida do praticante é se tornar um capitão de longo curso. E o sonho só será completo na primeira escala no cais santista.  

“Seria o ápice da carreira, comandar um conteineiro e trazê-lo para Santos. É o porto mais movimentado do Brasil, é participar da economia do País, de fazer tudo girar. A marinha mercante não parou, as pessoas trabalharam durante toda a pandemia. Os tripulantes estenderam o tempo embarcado para não se contaminar. E a gente tem que estar preparado para o pior. Tenho orgulho disso”.  

Apesar de já saber que ficará longe da família por alguns períodos, Victor aposta em conciliar o trabalho no mar e a vida pessoal, com casamento e filhos.  

“Ninguém quer ser um pai ou uma mãe ausente. Tem muitas mulheres na marinha mercante e, para elas, levar uma vida longe dos filhos é difícil, mas para os pais também é bem complicado. Mas é possível”. 

Victor é um dos tripulantes do veleiro Cisne Branco, que chegou ao Porto de Santos (Foto: Carlos Nogueira/AT)

Apenas os melhores alunos participaram da missão 

Apenas os melhores alunos de dois centros de formação de oficiais de marinha mercante foram selecionados para o treinamento a bordo do veleiro Cisne Branco. A embarcação segue no Porto de Santos até a próxima segunda-feira (22), quando retorna ao Rio de Janeiro, para a conclusão da viagem de formação.  

Ao todo, 18 formandos do Centro de Instrução Almirante Graça Aranha (Ciaga) e do Centro de Instrução Almirante Braz de Aguiar (Ciaba) vieram ao cais santista a bordo do veleiro. A primeira instituição fica na capital fluminense, enquanto a outra é sediada em Belém (PA). 

De acordo com o capitão de mar e guerra Marcos André Silva Araújo, comandante do Cisne Branco, os praticantes foram escolhidos em um processo de meritocracia e são os mais pontuados dentro de cada turma.  

“A rotina é de serviços do praticante no Cisne Branco é exatamente igual como se fosse um tripulante. A gente não faz diferenciação entre o tripulante em instrução e efetivo. Eles recebem um período de qualificação em todas as áreas do navio e acompanham todas as manobras gerais de vela”, explicou o comandante. 

De acordo com o capitão de mar e guerra, os formandos têm pouca intimidade com as velas, que devem ser erguidas durante o dia e recolhidas à noite, para garantir a segurança da embarcação e da tripulação. Além disso, a viagem a bordo do Cisne Branco tem como objetivo manter vivas as tradições da Marinha.  

“O que é interessante é que no encontro do mastro com a quilha do veleiro existe uma moedinha do almirante Tamandaré, que é o patrono da Marinha do Brasil, colocada na construção do navio. O conceito de instrução marinheira é o aprendizado, a prática do relacionamento do ser humano com o mar. O navio não segue uma rigidez acadêmica de formação”, destacou. 

Esta foi a primeira vez que o comandante do Cisne Branco veio em uma missão ao Porto de Santos. “Foi ótimo, a atracação foi muito boa, é um porto excelente. Fiquei encantado. Representa a dimensão da nossa economia, dá orgulho de ver um porto tão estruturado e grande”, destacou. 

Orgulho de mãe 

Logo cedo, antes mesmo da atracação do veleiro Cisne Branco no Porto de Santos, a empresária Petula Fazion, aguardava a chegada da embarcação e do filho, o praticante Victor Fazion Coelho. “Gostaria que todas as mães pudessem ter esse orgulho que estou sentindo e também gostaria que todos os jovens tivessem essa oportunidade, um norte que é tão importante para a formação e para a carreira deles. Estudar e ser reconhecido é muito importante”, afirmou.  

A ansiedade e a insistência valeram a pena. “Fui vista pelo comandante da Capitania (dos Portos de São Paulo, o capitão de mar e guerra Marcelo de Oliveira Sá) e falei com ele, que me autorizou a entrar e ir até lá. A emoção foi indescritível, contou.  

Para o futuro, ela promete acompanhar cada chegada do filho. “Ele que não me ouça, mas eu quero estar em todos os portos, um por um. E em Santos, que será sempre a melhor chegada”.

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