Práticos recebem prêmio por bravura no mar

Eles evitaram um desastre com dois petroleiros no Porto de São Sebastião

Dois práticos  que atuaram no Porto de Santos receberam um prêmio internacional de coragem por impedir um grave acidente entre dois cargueiros em 28 de abril do ano passado, no Porto de  São Sebastião, no Litoral Norte de São Paulo. 

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O acidente aconteceu quando dois petroleiros faziam uma transferência de óleo entre eles (manobra chamada de ship to ship), quando os cabos de amarração se romperam por conta da tempestade que atingia a região.
Os práticos Márcio Santos Teixeira e Fábio Rodrigues Alves de Abreu foram reconhecidos pela Organização Marítima Internacional (IMO) por sua “Bravura Excepcional no Mar”. 

Um prático das Filipinas também foi premiado na mesma categoria, que teve um total de 31 indicações, apresentadas por vários países.

O prêmio, que começou em 2007, é concedido àqueles que realizam atos de bravura em condições excepcionais para salvar vidas ou prevenir e reduzir possíveis danos marinhos. 

É a segunda vez que o prêmio vai para o Brasil.  Em 2008, ele foi concedido ao navegante Rodolpho Fonseca da Silva Rigueira, do navio-sonda Noble Roger Eason, por suas ações heroicas ao salvar seus companheiros de um incêndio explosivo na embarcação, que presta serviços à Petrobras no campo de Marlim Leste, na Bacia de Campos.

O presidente da Praticagem de São Paulo, Carlos Alberto de Souza Filho, disse que é um orgulho muito grande ter práticos da entidade premiados. “Nós nos preparamos uma vida inteira para situações como essa. E na verdade, todos os dias vivemos situações de emergências que muitas vezes a população nem sabe. Os profissionais nem pensam em prêmio, mas receber uma honraria dessas é um motivo de orgulho muito grande para a região e para o País”, afirmou.

O prático Fábio Abreu, de 39 anos, natural de Volta Redonda, veio para Santos em 2015. Desde 2018, atua em São Sebastião. Cursou o Colégio Naval e saiu da Marinha do Brasil como capitão-tenente. Em sua primeira aprovação no processo seletivo para prático, foi para o Porto de Natal (RN), depois, em um segundo processo seletivo, para Santos. 
Ele lembra a resiliência que teve no dia do acidente. Conta que não sentiu medo até mesmo pelas situações que os práticos passam todos os dias, já que seu pensamento principal era salvar vidas e evitar um desastre ambiental com o derramamento de óleo, que poderia afetar drasticamente aquela região.

“Eu estava preocupação com a manobra em si. Depois que eu desci do navio, quando cheguei em casa, que fui perceber o perigo que era aquilo. Existia o risco de vida, o risco ambiental, além do prejuízo econômico para o País. Depois de perceber que resolvemos aquela situação, sem nenhum dano, foi que me dei conta da importância dessa situação”, conta. 

O prático Márcio Santos Teixeira é carioca, tem 48 anos e está na Praticagem de São Paulo desde 2010, quando chegou para estagiar, passando em 2011 para prático em Santos e em 2012 para São Sebastião. Ele se formou na Escola Naval e atuava na Marinha na aviação naval.

Ele conta que esse é o tipo de situação que faz você ter ainda mais orgulho da profissão. Teixeira também afirma que, em nenhum momento, cogitou deixar de atender ao chamado. 

“Essa operação nunca tinha sido realizada pela Praticagem de São Paulo. E eu e o prático Abreu só descobrimos que os navios já estavam à deriva e ainda amarrados um ao outro quando nos aproximamos deles com a lancha da Praticagem”, recorda.

Operação

O prático Márcio Teixeira diz que o sucesso da operação se deu porque os dois, ao se depararem com a situação, definiram bem seus papeis. Ele recorda que a tripulação também estava muito atenta e foi profissional o tempo todo, seguindo suas instruções. 

A tempestade fez com que os dois navios ficassem à deriva, porém, ainda conectados pelos cabos. Os ventos estavam a 110km/h com rajadas beirando os 135km/h.

“Eu embarquei no navio grego, o Rio 2016, e pedi que o Abreu embarcasse no outro, o Milton Santos. O maior desafio foi esse embarque pelas condições do tempo. O navio estava praticamente parado, sem propulsão, o que prejudicou a estabilidade da lancha, ao contrário do que se pensa. Estando o navio em uma velocidade normal, de seis nós, o embarque é mais fácil. Mas consegui acessar o navio”, diz Teixeira.

Fábio Abreu lembra que era preciso pensar como inverter o bordo porque os navios estavam se deslocando para Ilhabela. “Márcio assumiu a operação e resolveu que depois que conseguisse estabilizar os navios eles seriam fundeados separadamente”, recorda.

Quatro rebocadores apoiaram a operação - em condições normais, esse número seria para apenas um petroleiro. Primeiro, os práticos estabilizaram os navios no meio do canal de São Sebastião. Então, começaram a manobra para navegação dos dois ainda amarrados, a uma velocidade de 1,5 nós (2,8km/h). 

Toda a operação durou mais de 5 horas, acabando às 22h40.

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